terça-feira, 15 de setembro de 2009

Cena de farol

Linha Anhagabaú, Teodoro Sampaio morro acima. Cena de farol, vista através de vidro com fuligem. Tem alguém sentado na calçada, ali fora, entre a manicure e a padaria. Os braços abraçam as pernas, as pernas escondem o tronco, a cabeça se esconde no vão entre ambos.

Será um mendigo?

Os cabelos loiros estão bem lavados, a roupa é decente (blusa de lã trabalhada, calça arrastão, havaianas azuis). De repente, levanta o rosto. Brincos, menina, adolescente, 20 anos no máximo. Tem sardinhas. Aperta os olhos azuis protegendo-os do sol, a boca repuxa. Parece que está acordando.

Motores acelerando, os carros da frente começam a se mover. O farol se abre e o ônibus ainda não saiu do lugar. Ela ainda está ali, encolhida, agora com o queixo enterrado nos antebraços (o sol continua forte e é ruim acordar, assim, com a luz de chapa na cara). O cenho estremece, fica corado. Ela desarma os braços, solta as pernas e abaixa um pouco a cabeça. E então esfrega forte o rosto (agora muito vermelho) com a manga da blusa.

Sinto um repelão que me puxa para frente. A menina começa a deslizar para trás. Duas longas pernas, calça jeans, bloqueiam minha vista.

Manicure, padaria, rara visão da Fradique Coutinho sem trânsito, loja de móveis modernos. Minha cabeça faz giro de 45º.

As pernas sumiram.

A mão se estende no ar em forma de concha.

(e não está chovendo)

3 comentários:

Flavia disse...

Ai batata, que incrível!!!
gostei especialmente desse último :)

Vinicius disse...

Valeu, Flá. Continua pintando por aqui que, vira e mexe, eu posto mais um. Bjim

Karin Raduan disse...

Conheço essa garota e até senti o sol frio no rosto e o cheiro de trânsito!

Adoro!