segunda-feira, 20 de dezembro de 2010

Do not unwrap for happiness

Filas disciplinadas nas duas vias da calçada. Uma de ida; outra de volta. Passarelas automáticas contornam os ambulantes.

Em frente aos obeliscos dos bancos da capital, festivos nós de gente. Fosse domingo, aquele lugar, onde de praxe correm números, teria o ar pacificado de um parque. Mas não: o clima é de cansaço, flashs e decoração.

A foto repete a paisagem paralizada. Mais tarde, com alguns clicks, cada qual otimizará o rendimento imagético. Contrastes de cor e profundidade restarão finalmente equilibrados.

Times Square times = Av. Paulista.

terça-feira, 22 de junho de 2010

O fantasma da pequena área

Este texto surgiu como comentário à notícia sobre a mais recente briga de Kaká e Juca Kfouri. Segue abaixo o link

http://g.br.esportes.yahoo.com/futebol/copa/blog/daredacao/post/Kak-sai-do-tom-e-ataca-Juca-Kfouri?urn=fbintl,250361#mwpphu-container

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1.Futebol, política e entretenimento


Futebol e religião se misturam, sim, no Brasil. E, nessa mistura, são mais políticos do que as coisas públicas por aqui. Se política quer dizer "a maneira como a população trata assuntos de interesse público", no futebol seus desejos estão muito mais bem representados do que nas urnas. Inclusive com base na história recente. Há restos de demanda popular no Corinthians; é possível ler o processo de ascensão social dos imigrantes italianos no Palmeiras; a Portuguesa tornou-se um time menor ao mesmo tempo em que o sobrenome português tornou-se um detalhe irrelevante nas certidões de nascimento; todo mundo no "interior" do Brasil é flamenguista justamente porque o Flamengo é o time do povo só no Rio, estado-síntese do espírito malandro nacional. E, finalmente, o elitismo democrático sãopaulino equivale à aura cosmopolita do estado carro-chefe - a voraz locomotiva - do país.

Não dá pra ignorar esse tipo de "coincidência" entre a "tradição" dos times e a maneira como cada brasileiro se compreende. São marcas do processo histórico. É disso que se constituiu aos poucos a firme relação entre o jogo e as identidades no Brasil. A ignorância sobre a função simbólica do futebol torna-se portanto um problema do ponto de vista da compreensão do país. Uma problema porque outras diversões chegam à rodo com a internacionalização do mercado e desempenham funções emelhantes; porque hoje falar de futebol não significa necessariamente não ser preconceituoso e compreender bem a cultura popular. E, finalmente, porque o próprio futebol já não é o que era antes. Já não está mais tão evidentemente ligado à vida prática no país, e, nessa falta de vínculos, serve melhor à indústria do que a quem quer entender onde pisa.

Ou seja, se hoje em dia muito pouca gente torce pelo seu time por identificar-se conscientemente com ele, esse é um processo induzido. Um processo que acarreta também a dificildade de compreendê-lo como fenômeno real. Quanto mais os times tornam protagonistas de um espetáculo gigantesco; quanto mais eles produzem trilhões em, na esteira do futebol como um todo convertem-se em entidades (ou marcas) segmentadas em mil formas de fruição, menos o ritual dos campos tem a ver com a vida real das pessoas, que, no entanto, sustentam-nos, times e futebol, com um esforço de dedicação afetiva jamais visto.

Justamente isso é que permite dizer que, sim, o futebol é político. Mas, é claro, com a ressalva de que, no futebol, como na política, as decisões que compõem as verdadeiras regras do jogo estão cada vez mais além da consciência das pessoas - por sua a vez, a verdadeira base de sustentação do espetáculo.

2. Sob o viés de quem veste a camisa

Pois bem. Compreendido sob o viés do torcedor (ou fã - fanático - do futebol), esse processo coincide exatamente com o da transformação do "futebol-arte" em jogo multimilionário, globalizado e já não tão baseado no talento. Choram todos os que veem partidas medícores durante o ano inteiro: nenhum jogador hoje em dia tem o talento que tinha um Pelé. De fato, isso é uma verdade. Coerentemente, os torcedores já não são como antigamente, conhecem as regras, têm camisetas, vão aos estádios no ônibus da organizada. Por outro lado, entendem quase nada das minúcias da "grande arte". Pouco se pode apagar desse fato. E justamente por isso as queixas dos fãs são tão inócuas quanto o senso de realidade dos comentaristas que manda valorizar o jogo médio atual (e assim conservam seus empregos).

Entretanto, por mais que o futebol tenha se tranformado em uma diversão razoável à custo de tornar-se incompreensível, sobrevive ainda no ato de torcer justamente a mesma parte de idealização que caracteriza as queixas dos antigos pelo fim dos "tempos áureos". No fundo, é como se a casca de truculência e encantamento ficasse e o próprio futebol se esvaísse. Discute-se superficialmente as partidas; comenta-se com tédio a política; a religião parece uma prática arcaica, e o espetáculo continua.

Ora, isso só faz provar o quanto mesmo o menos encarniçado torcedor não pensa nas coisas que sempre sustentaram-lhe o alto valor na cultura brasileira. Claro. Pensar sobre futebol contraria a própria essência do costume de "torcer", com a qual, para gostar desse esporte ao mesmo tempo democrático e de tudo ou nada, cada simpatizante precisa se comprometer. Afinal, foi para estar afinado com a vida no país que seu "espírito" procurou o futebol. E ele não há de abandonar o achado tão cedo.

Não é culpa dele. O poder dessa crença, em si um poder profundamente político, é grande demais. Ao empolgar-se com futebol, o torcedor carrega para dentro de si essa magiquinha que reforça o vínculo instintivo e misterioso entre a beleza dos chapéus do Pelé e o espírito profundo do Brasil, cuja imagem mais perfeita está naquele passado de tolerância, labilidade e desrecalque que fez a glória da cultura brasileira como um todo. Por sua vez, essa mesma imagem, através da inconsciência e do ardor amador do torcedor contemporâneo, sustenta ilusões preciosas para a manutenção do status quo no presente. E isso tanto mais quanto menos se encontra nas ruas um rastro sequer do belo país.

Nesse sentido, não é mesmo permitido a nenhum torcedor tocar no passado do futebol. A todo preço deve ficar incólume o tempo em que meninos de rua, curtidos na cultura local, transformavam-se do dia para a noite em semi-deuses do esporte. Sim, no fundo sempre houve e sempre haverá um anjo dormindo no espírto de cada grande craque do passado. E todos sabem que a substância divina que anima os anjos é coisa secreta, inacessível a olhos e escrutínio humanos. Quando convém à ordem divina, no máximo Deus manda descer seus emissários à pequena área. E ali, tocando de súbito o ombro de uma jovem promessa, eles fazem irromper uma dessas jogadas que, hoje, não deixam de trazer um quê irremediável de saudade dos velhos tempos.

Inútil sugerir que em tal mistificação entra tanto de religião laica quanto entra nos gordos dízimos que Kaká envia todo mês para a Universal do Reino de Deus. Isso não parece chamar a atenção de ninguém. Exceção feita ao público que, muito embora não veja graça no jogo, involuntariamente acompanha um pouquinho de futebol, já que, afinal de contas, da graça e da desgraça divina ninguém consegue se esconder. Pois bem. Por todas essas razões arrisco dizer que somente a esse público recalcitrante está dado enxergar como de fato funciona a religião futeboleira lá dentro do coração do torcedor. E mais: juro de pé junto que justamente por isso é que Juca Kfouri, o anacoreta do futebol, persegue o impulso supostamente desespecializador de Kaká (aliás, seus comentários automaticamente lançam contra o jogador os mais ferozes leões da mídia eletrônica impessoal, arena onde nenhuma difamação é forte o bastante).

3. Nas trevas do coração do guerreiro

Então, vamos lá. Como se comportam esses 150 milhões de corações?

Bom, exatamente como a religião hoje faz menos, o futebol desvia a suas mais intensas vontades para o além-morte da arena sagrada, o estádio, onde ocorre a disputa pela honra que, na Terra, é impossível não macular. Ou seja, o fã de futebol, exatamente como o crente, nunca é um fã desinteressado. Ele toma parte em apenas uma forma de salvar-se inimiga de todas as outras, mas à brasileira, em esfera imaginária e com duvidoso respeito pluricultural às diferenças. Mesmo ciente de que aquilo não definirá sua vida real, ele se vê bem representado pelo seu proselitismo a cada campeonato. Pois se as brigas frias e diárias da vida não guardam rastro das grandes aventuras que o torcedor planejava quando menino, as dos jogadores preferidos conservam-nas oniricamente. Mas o movimento entre sonho e vigília é duplo, neste caso. O fato de o torcedor se empenhar na contemplação do rito sem poder abrir mão da distância contemplativa cobra direitos na vida real. Daí porque, mesmo sem saber para que time torcem os que lhe cruzam o caminho (ou quem são exatamente eles), o torcedor decodifica a vida enquanto embate geral entre o bem e o mal, onde guerreiros constituídos segundo tradições diversas estão brigando para cavar suas vitórias tanto quanto ele. E para alcançar tal fim valem tanto as boas obras quanto o arbítrio de Deus.

Em suma, admitido como uma diversão inocente, afirmado como disputa real pela felicidade imaginária, o futebol termina por ratificar a tomada de posição do torcedor na guerra incruenta sobre a qual se sustenta a vida semi-civilizada das camadas médias no Brasil. E nesse processo troca todas as formas modernas de se conceber a sociedade - com suas liberdade e opressões reais - pelas pré-modernas, ligadas às raças, tradições e compromissos culturais. Brincando um pouco, a agregação dos negros pela afirmação racial pode ser um sonho desmentido pela políticas culturalistas que trasnformam seus louros em formas de luta individual; o cultivo de tradições familiares pode ter se tornado uma piada no brechó da Vila Madalena cujos proprietários são uma família de gaúchos; os bolivianos são escravizados no Bom Retiro só porque são os mais recentes imigrantes. Mas o futebol ainda vive de fazer crer que o espírito brasileiro está na ginga do capoeirista; que o sul é um monobloco cultural separatista; que os bolivianos são os verdadeiros nativos da america latina e, como tais, cativos do poderio eurocêntrico.

Na terra em que brasões sempre foram exibidos para encobrir as negociatas e humiliações que as familias emigradas tiveram de cometer ou sofrer, esse é o verdadeiro espírito heráldico do torcedor.

4. O apelo comunitário do futebol - futebol e religião antes de 1960.

Mas se o futebol é como a religião, também a administração do futebol é (e sempre foi) como a das “repartições religiosas” – as igrejinhas e associações espiritualistas. A alucinação diária do torcedor não é sem fundamento. O próprio futebol espraia-se como instituição real. Sem deixar de ser um rito esportivo, mas tornando-se objeto de valor exatamente por isso, este jogo troca trabalho de fé por rendimentos.

Já trocava quando o Brasil ainda era uma feirinha de bairro e ainda troca agora que ele é uma loja de conveniência. Estou falando do dízimo, sim, que os ateus, os católicos e os orientalistas tanto criticam, mas também e principalmente de toda a estrutura de subsistência real da fé que é pressuposto mundano de qualquer atividade religiosa. Aos times de futebol antigos equivalem as irmandades e os terreiros; aos times modernos equivalem as grandes igrejas evagélicas atuais. Algum segredo nisso? Acho que não. Entretanto, a maneira como essa esquisita relação entre espiritualismo e futebol no caso do Kaká enerva a mídia e os torcedores "esclarecidos" tem algo de "secreto". Algo que a história do futebol (e do país) soterrou e que, de repente, vem à tona. O que será isso?

Vamos ao passado, então. E segure-se, coração patriota... Como se vivia a religião no Brasil antes da esmagadora ascensão das igrejas evangélicas? A nossa geração só vai se lembrar disso, lembrando como na infância as igrejinhas de bairro e as sacristias agrupavam o pessoal das redondezas em uma cultura comum. Vestígios dessa verdadeira rede de relações sociais de classe média sobreviviam nas barraquinhas de bingo e de tiro ao alvo das quermesses que hoje se realizam em pátios de igreja só por costume. Em meio às barracas de pipoca e algodão doce, entre uma e outra dentada no pãozinho com carne de panela, sempre aparecia Dna. Marta com uma rifa. E a vizinhança fazia o sinal da cruz esperando que a prenda fosse gorda. Função semelhante, acredito, desempenhavam (e, talvez continuem desempenhando) os terreiros e os sambas em bairros mais pobres, onde a vida religiosa, como no centro, nunca pôde se despregar dos pequenos empreendimentos. Mas como estamos, neste caso, nos anos 80, é claro que tudo isso já tinha a cara de diversão inocente, feita para esposas e crianças. E é claro também que a ela correspondia - como coisa mais séria e viril - o futebol.

Acontece que essa maneira "comunitária" de se viver a religião no Brasil não tem nada de gratuíta. Ela vem do abismo entre a cultura da elite e dos escravos, da separação entre o culto sério e o culto vulgar, do hiato entre a religião santa mantida às claras na capelinha do sinhô e a que sempre esteve imiscuída em negócios de providência miúda. Uma divisão que se tornou definitiva quando a igreja foi cortada dos assuntos públicos, processo que aqui nas nossas bandas foi levado à cabo pelo Marques de Pombal, ainda no século XVIII.

A hora era perfeita. Constatava-se o desenvolvimento do mercado e das camadas médias ligadas à mineração. Constatava-se igualmente que a igreja continuava suprindo essa nova gente de recursos e assim tornava-se mais importante do que a coroa - que só queria saber de derramas e outras extorsões. Ora, feito o desligamento, retirava-se da igreja a capacidade de articular a gente miuda das lavras aos bens de usufruto público que mais e mais ela iria reclamar. Não custa lembrar que a concessão esclarecida vinha depois de outras tentativas de pacificação menos sutis - como o esquartejamento do oligarca que, para pensar melhor, propagava ideais republicanos no Brasil colônia, Tiradentes.

Mas cortando a cabeça da igreja, nem por isso os membros deixavam de funcionar. Noutras palavras, sob a proibição da coroa, a religião como administração comunitária de benesses sobreviveu sob a forma daquilo que até hoje se pode constatar muito presente em Minas Gerais: as irmandades. Em que consistiam as irmandades? Em agregações filiadas santos padroeiros, por sua vez correspondentes a coordenadas "mudanas" como raça, pertencimento local, ofício, etc. A igreja não provia mais os filhos de mascates, tropeiros e mineiradores de escolas, mas a comunidade ainda sobreviva nas trocas de bens menores e outros socorros. Sendo menos neutro, as irmandades eram organizações que de maneira tão pouco declarada como a do Estado - só que nas esferas que o Estado já abandonava - tinham a função de "salvar e abandonar" conforme critérios de identidade e interesse próprios. Em suma, sob a base comum de crença, dentro da qual os grupos divergiam na interpretação do culto, a religião desenvolvia-se de acordo com as redes de identidades muito complicadas que se desenvolveram neste país multirracial e de contorno de classes pouco claros. E nesse contexto, a cada comemoração, as facções pugnavam em torno da salvação celestial, que, na prática, equivalia à ajuda mútua e a favoritismos. Daí porque, longe de compartilharem a riqueza, sob formas de juízos tão seguros e equânimes quanto o jogo e senso de solidadariedade cristã, as pessoas competiam pelos prêmios que, dependendo da situações, permitiam sobreviver ou desoneravam a renda incerta das lavras de alguns poucos gastos. É óbvio que quem tomasse maior parte nos negócios carolas garimpava às bênçãos mais generosas.

Pois bem. Acontece que a mesmíssima coisa, um século e meio mais tarde, dava-se em torno dos times de futebol de várzea. Alguns devem se lembrar da aura revestindo um tio ou primo que batia uma boa bola. No interior e nos bairros operários de São Paulo isso é muito frequente. Para os netos e bisnetos dessas potestades da várzea local de 1940, esses seres eram criaturas de exceção. Eles superaram as adversidade da má origem e ganharam a vida às custas do talento que Deus lhes deu, blablablá. Um pouco por isso, ainda em 1980, quando o filho nascia, cada família "torcia" para que o moleque fizesse pelo menos 30 embaixadas de olho fechado. Claro. A tal dádiva de Deus tinha um significado muito preciso: o talento do menino há pouco implicava também possibilidades na vida. As notícias de pobretões furando as condições e chegando a times de vulto internacional eram, obviamente, muito escassas; assim como havia sido um dia a distância entre a vendinha do seu Zé e, digamos, o truste dos Rothchild. Noutras palavras, como o capitalismo antigo não era internacional na escala que é, o futebol ficava na pequena escala que sempre ficou enquanto estava dividido como passatempo de grã-finos e cultura popular: como exceção, era caminho de intensa possibilidade de ascensão social (Garrincha, Pelé); como regra, era uma forma de gerir os restos da produção nas camadas médias e baixas. Mesmo no século XX, quando os grandes times começaram a se desenvolver, essa cultura local é que dava sentido ao grande espetáculo ouvido com fervor nos radinhos de pilha. E por isso, acompanhar o rito diário do grande futebol significava reforçar como legítima a outra prática: a das peladas semanais que, se botavam pouquíssima gente pra jogar com Pelé e Rivelino, salvavam muita gente de apuros e, principalmente, condenavam à mendicância e à cadeia um outro tanto.

Ora, é justamente essa base social nada romântica do futebol que sumiu de vista. Não só da consciência do torcedor como também da fachada limpa e apresentável do jogo atual. Neste exato momento, cada homem que veste uma camisa de time de bairro procura a iluminação súbita de seu craque multimilionário, cujos lances mais memoráveis ele tem gravado em cassete para os dias em que o mé não basta. E haja mé: se antes, exatamente como as irmandades, os times de várzea propiciavam ganhos a partir de uma disputa amigável por favores, hoje, o futebol de várzea (tanto quanto o profissional) não rende nada ao cidadão de classe média, rendo migalhas aos pobres e enriquece apenas aos grandes jogadores e aos empregados das sucursais internacionais da mídia (que vivem como cracas no queixo do tubarão). Aliás, exatamente como a igreja só rende mesmo aos pastores (e tanto mais quanto mais ruidosos e politiqueiros sejam e mais malas de dolares possas carregar para a Suíça).

Instalado como passatempo de sinhozinho, o futebol penetrou tanto no Brasil justamente porque, pouco a pouco, tornou-se um jeito de os pobres negros e a miserável classe média branca "agregarem valor". Valor aliás arrancado legitimamente de si mesmos (já que tinham e não tinham como sobreviver com um mercado interno tão escasso quanto o que havia no Brasil antes da década de 40). Era como o carteado. Era como o jogo do bicho, o lugar em que cada pobre diabo "fazia sua fezinha" e às vezes tirava a sorte... média. Com a modernização, essa pré-história do futebol-macumbeiro-jogo-do-bicho-semi-marginal foi obliterada. À despeito, é claro, de continuar acontecendo nos lugares em que a condição de vida é semelhante, sem os ganhos correspondentes. Nada contra, não fosse o fato de a pelada do fim de semana não salvar mais ninguém da pobreza. E isso é tão mais triste quando a gente percebe que seu lugar de providência foi tomado pelo terceiro setor e o narcotráfico, e o de despêndio, pelo crediário das Casas Bahia, esse esfolador barulhento.

5. O ebó moderno de Káká x a fúria independente do torcedor esclarecido

Dito isso, o que tem Kaká a ver com toda a historia?

Pois bem. Marcelinho carioca era crente, muitos jogadores são crentes. Mas quando Kaká - jogador branco, criado no São Paulo e parecido com o boneco Ken - acende uma vela para seja lá qual for sua igreja, ele está mexendo nas regras do futebol esclarecido. Não só nas do espetáculo maroto de todas as noites (cujo horário a Globo determina), como também nas da própria indústria futeboleira. O caso não chega a ser grave, mas é suspeito. Ronaldinho com suas noitadas transsex provocou piadas, mas não conseguiu semelhante façanha. Pois, diferentemente dele, Kaká não só se presta como imagem (ou "santinho") para um comercial da Nike, como também está trazendo para o seio do futebol contemporâneo uma prática escancaradamente arcaica, duvidosa. Se o país fosse o mesmo, alguns milhões de suas contas bancárias estariam - ou só na imaginação dos torcedores estariam - tirando famílias da pobreza. Mas como a religião e o jogo populares já não têm o poder que tinham antigamente, quem leva seu bocado é uma outra indústria que não produz nada além de esperança para os pobres. Essa religião é que o assinante da Placar ataca. Primeiro, porque ela não rende nada a quem já anda a perigos. Segundo, porque a esquisitisse arcaica traz reminiscências da sobremesa cavada a gols pelos mais velhos...

O poder de choque disso só podia ser muito maior do que o da quebra de qualquer tabu sexual por um jogador excêntrico, já meio gordo e, ademais, menos branco. O ebó moderno de Kaká é forte demais. Suas preces e seus milhões correndo para o bolso dos gangsters da salvação fazem com que o público pagante e assinante da ESPN torça o nariz vendo ali, bem diante dos seus olhos, aquilo que com muito custo foi reprimido pelos seus ascendentes justamente a fim de que, para seus filhos, o futebol pareça ser isso que parece ser hoje: uma diversão democrática e a laica. O susto com as demonstrações públicas de fé vem, é claro, para reprimir qualquer tipo de aproximação entre o passado do futebol e as teatralidades correlatas que os crentes pobres da Universal de Deus fazem em pequena e desesperançada escala. E o ranço que recai contra isso é o ranço de gente que não gosta de ver um costume de pobre invadindo aquela que essa mesma gente cinicamente considera a mais democrática das diversões modernas. As caríssimas camisetas oficiais, o canal de assinatura com cobertura completa, as alas vips, as copas mundiais, bem como a discussão com peritos existem exatamente para manter bem estabelecida a distância

6. Epílogo - fim do fairplay ou Pai, se me abandonares ao triste 0 x 0, eu ainda com mais sofreguidão te servirei.

Faz sentido. Se o torcedor, hoje, sob a desculpa de cultivar um hábito querido, procura distintivos de classe que o comprovem como um torcedor mais competente, é justamente porque, tanto quanto os menos competentes, ele já não pode tirar a sorte miúda na "caixinha de surpresas". Nem daí, nem do truco, do poker, da cacheta, do bingo. Em certo nível confuso de sabedoria, todo torcedor sabe disso e enxerga no futebol uma dessas forças que magicamente fazem com que a violência instituída se justifique quanto mais lhe favoreça o livre usufruto do roubo coletivo e menos lhe pesem os desconfortos de consciência decorrentes. Tomando a forma de jogo, isso não tem mal nenhum. Alí, em terreno sublimado, cada um pode dizer que quer ver os outros chafurdarem na derrota e assim gozar as glórias de ser campeão.

É assim que o futebol tem funcionado no Brasil, desde sempre. O problema, no entanto, começa a aparecer quando a dificuldade da salvar-se da miséria geral já está tão forte que já não permite que o torcedor confie apenas em seu amor pelo esporte. Esse, desde que a indústria fez do futebol um sítio de pequária intensiva, já não proporciona por si só grandes emoções. Ou então, a gente poderia dizer que os sufocos da situação de subemprego e desemprego superam-nas, obrigando o dito cujo a esforços de fanatismo displicente que nem mesmo seu avô compreenderia. Consequentemente, o amante de futebol, em nome de manter acesa a chama, precisa cada vez mais se recobrir da aura de destreza e determinação com que a propaganda reveste os craques de futebol. A contemplação distante do espetáculo se torna tão mais imperiosa quanto mais seu subtexto obsceno ameaça romper à luz do dia. Justamente por isso é preciso relativizá-la, encurtar imaginariamente a distância, fazer com que cada um, conoisseur ou não, tome parte no campo, leve às ruas as cores do time amado. Esse é o trabalho realizado pelo merchandise, que estende sob preços diversos até ao mais comum dos mortais badulaques futebolísticos.

Exatamente por essa democratização compesadora da imagem do futebol, seu caráter de luta baixa vem à tona. Quanto mais o torcedor compra gato por lebre, mais a imagem arrojada e bela do passado futebolístico - cuja força vinha da imagem de belos corpos atléticos constituídos como que espontaneamente - reverte-se no seu contrário. Um breve passeio pelas ruas em épocas em que o futebol não é uma histeria geral demonstra que a preferência por adereços de futebol desponta nos "manos" de subúrbio (não os de verdade): nos filhos de donos de microempresas. A pletora das bandeiras recobre preferencialmente hoje essa diversidade de lumpen-classe-média-baixa que não esconde a disposição de ir às vias de fato nem mesmo quando fala. Só neles a camisa veste bem - não no playboy que conhece todos os resultados de jogos desde 1930; não no moleque de rua que ostenta no peito a marca adidas. Neles, os que, recém-emersos do abismo, para não cairem de novo no fundo do poço, praticam a violência vulgar que nos demais toma a forma de assaltos ou de finas ironias. Ora, exatamente por isso, a imagem do futebol como um todo evoca a figura que constitui o maior pesadelo de tal espécime: a dos aposentados e desempregados que lotam as praças de subúrbio com suas velhas caixinhas de dominó - a inadequação da imagem residindo apenas no fato de que uns, cientes da própria situação, já perderam a voz e outros, na esperança de algum olheiro divino ou de ensurdecer o vizinho, ainda gritam.

Disso tudo se tira o seguinte: as esperanças que eram remediadas no futebol de várzea antigo de fato sobrevivem na torcida pelo futebol high-performance, mas como um fantasma. E esse, justamente, é que é o seu demoníaco sentido político. Um sentido que só tem na religião sua melhor expressão porque a religião nada mais é do que a protoforma reprimida da política moderna, precisamente a que medrou nos países em que a desigualdade extrema instalava os pobres e as classes médias como marginais da vida pública. Como se sabe, em contexto diverso, a religião era a forma de política que predominava na Europa, antes que a famigerada burguesia, uma vez completamente instalada no poder, inventasse a primeira estratégia de dominação baseada no consenso consciente dos dominados: a democracia.

Pensando nisso, a gente poderia dizer que, encantado com o jogo que já não tem nada de magia e desesperado com o risco de tornar-se um derrotado, é justamente a favor dos dribles que a vida dá na sua consciência de cidadão abandonado e de peça sem valor no mercado de trabalho que o torcedor grita "gol".

terça-feira, 15 de junho de 2010

Em defesa do delegado

Da para desistir ?

Para quem não sabe eu faço doutorado em psicologia social na USP e minha pesquisa é sobre relações raciais e racismo no Brasil .Hoje acordei cedo com o propósito de ir na delegacia de crimes raciais e delitos da intolerância –DECRADI- pois um amigo meu precisava de alguns Boletins de Ocorrência sobre crimes de racismo. No metro em direção a Praça da Sé entrou uma senhora negra com sua filha, que também era negra, no banco ao meu lado, a menina começou a chorar ,e para acalmar a mãe tirou uma boneca loira de olhos azuis para a menina brincar. Neste momento eu pensei : Que merda ! desde cedo esta criança vai introjetar como padrão de beleza loiras de olhos azuis .... Eu se fosse a menina teria começado a choras mais ainda! Rs Pois, imagine que dificilmente esta mãe irá conseguir achar para comprar em uma loja popular na cidade de São Paulo uma boneca negra para a filha brincar....Bom, chegando à delegacia de crimes raciais o delegado responsável pelas queixas de crimes raciais e intolerância me atendeu dizendo que havia deixados os B.Os em sua casa. Eu que estranhei um delegado levar os B.Os para casa perguntei se ele também estava fazendo pesquisa sobre o assunto, o delegado educadamente me convidou para sentar e começamos a conversar sobre o assunto. Perguntei ao delegado qual era o grupo que sofria mais ataques, ele me respondeu que primeiramente as torcidas de futebol é que mais causavam violência, e depois disse que os grupos neo-nazistas costumavam atacar negros, homossexuais e lugares de judeus como sinagogas, cemitérios e etc... Fiquei curiosa sobre o assunto e perguntei mais como eram estes ataques, e eis que vem a resposta do delegado:---- Porque você sabe né ? Judeu ninguém gosta, nem agente aqui da delegacia nem os punks, nem os neo-nazistas, nem os ricos nem os pobres... Só eles mesmos conseguem gostar deles, e olhe lá! E como eles são cheios de dinheiro (mostrando com a mão o sinal de dinheiro) os casos de ataques eles mesmos chamam a própria segurança e acabam não precisando da gente. Eu que sou judia, e pesquiso crimes raciais contra negros no Brasil fiquei tão sem palavras que não consegui responder (que raiva). Agora me pergunto: Se este é o delegado que trabalha contra queixas de intolerância e racismo, para quem iremos reclamar dele mesmo ?

Comentários:

da pra insistir?Infelizmente L. a gente sabe de 'cadeirinha' que as vagas no servico publico brasileiro sao ocupadas em sua maioria por pessoas que ignoram o que estao fazendo (ignorantes). Infelizmente todas estas lutas diarias que nos empenhamos por uma "sociedade mais igualitaria", na pratica, nos geram na maioria das vezes, sentimentos de indignacao, estranhamento, solidao, injustica e tristeza. Nao tem jeito nao, ou a gente desiste, ou insiste! ...



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Em defesa do delegado

O delegado desde criança não vai com a cara dos judeus porque, certa vez, sob doce pressão da mãe, foi obrigado a granjear desconto na loja da esquina e ouviu do comerciante palavras duras que nunca mais esqueceu. O delegado guarda mágoa dos judeus, já que, pouco depois do incidente, ouviu de um amiguinho que passou por situação semelhante que aquele cara devia ser judeu e, como tal, pertencente a uma raça que salva o seu e quer que tudo o mais se exploda. Daí em diante ele não jamais aceitou sequer uma carona no guarda-chuva de um judeu (mesmo em noites de tempestade). O delegado passou a torcer contra os judeus desde que, certa madrugada, quando era adolescente, zapeando a TV, logo depois de ouvir as palavras do pastor Silas Mafagafo e os gemidos de êxtase correspondentes, acabou assistindo por acidente a dois documentários na Cultura: um sobre o holocausto, outro sobre Israel. Desde então, por alguma reminiscência infantil, ele resolveu que o lugar dos judeus é lá naquele país, onde eles podem andar à vontade de barba grande, chapeuzinho e toga, matando palestinos aos borbotões. O delegado às vezes prende mentalmente os judeus que lhe cruzam o caminho, pois, um belo dia, quando ainda era aluno da ACAPOL, estava andando por Higienópolis e trombou com um homem de barba grande, chapeuzinho e toga, que, irritado, resmungou, à despeito de seu uniforme a sigla conhecida, coisas muito ofensivas numa língua desconhecida. Isso, além de indispô-lo ainda mais, o fez querer mais ainda ser delegado. É que, não sendo ainda policial, ele não pôde reter o hostil transeunte por assédio moral, ou por atravessar fora da faixa; e, já sendo policial amador, não pôde responder de maneira menos autorizada pela instituição. O delegado tem arrepios quando ouve falar de judeus, porque, mais tarde, quando foi deixar sua lista de casamento na butique do Shopping Higienópolis, se deu conta de que nenhum dos seus convidados poderia comprar coisas lá. E se comprassem, certamente lhe cobrariam a desfeita com piadas deselegantes (por mais que sua esposa caprichasse no brigadeiro, por mais cara que fosse a lembrancinha). O delegado foi pegando repulsa pelos judeus, já que certa vez, depois da última aula do semestre na PUC, foi tratado como empregado ao atender uma ocorrência de roubo na sinagoga (que, talvez para amargar ainda mais a desfeita, garantiu-lhe a janta aquela noite). Hoje ele não se lembra se isso aconteceu com ele ou com um amigo antigo de faculdade. Afinal de contas as ocorrências são muitas, principalmente na época do natal, festa bacana que os judeus ignoram. O delegado passou a considerar os judeus, definitivamente, uma raça herege quando, certa noite, um grupo de maus elementos entrou em sua casa lá na Penha e rapelou tudo, inclusive as coisas boas que datavam do casamento. Para completar a crueldade, os safados deixaram pregado na mesa de centro um bilhete ressumando palavras de vingança (especialidade do Deus judeu). Para trás ficou apenas imagem do Deus-menino, infinita fonte de bondade e perdão, fixada na parede de azujelos amarelos da cozinha. Foi então que ele se deu conta do quanto aquela imagem, que sempre ignorava no repasto matinal, vinha reconfortando-o. Muito mais aliás do que os remédios, as noites no bordel, as duas amantes e o forró de sexta-feira, que já não funcionavam tão bem como antigamente. Recentemente o delegado passou a declarar-se sutilmente como inimigo dos judeus, pois deu-se conta de que, sempre ricos, suprem sua única necessidade de segurança com o setor privado, e assim transformam o trabalho dos policiais em um produto tão barato quanto aqueles com que a maioria de seus amigos o brindaram no casamento, nem por isso poupando-o de piadas deselegantes sobre a falta de variedade da culinária doméstica. O delegado às vezes, sozinho em seu escritório, vitupera contra os judeus, quando lembra que nem a segurança privada, nem os soldados em ronda fizeram nada para impedir aqueles desgraçados que levaram seu filho ao caixa eletrônico, extorquiram o pobrezinho e deixaram em sua testa uma cicatriz que até hoje não saiu. O delegado tem os judeus como algo que não desce na garganta, porque ouviu barbaridades daquela senhorita de mini-saia violentada na Bela Vista. Desde então concluiu que - pai, porque me abandonaste? - resta a ele proteger a classe média dos pobres menos dóceis, tarefa com que a segurança privada, muito mais equipada e bem paga, colabora modicamente e só em bairros onde recebem cafés mais bem adoçados para fazê-lo (e às vezes, é verdade, um ou outro brioche). O delegado já nem esconde que preferia ver todos os judeus mortos, afinal a força foi duramente criticada no ano retrasado, quando reprimiu o protesto da Polícia Civil, justamente por um jornalista judeu. O delegado tremelica de sentimentos violentos contra os judeus porque acha que, se hoje fosse dono de uma empresa de segurança privada chamada David Star e de uma academia de Krav Maga, protegeria apenas os rico e assim seria visto só pelas qualidades que possui, especialmente a de zelar pela paz dos ricos, sendo desonerado das falhas de educação, da origem social pouco ilustre, do olerite maculado pelo carimbo Estatal, dos benefícios da carteira assinada, ou mesmo do posto de xerife de uma cidade sem lei.




Enfim, o delegado afinal de contas chegou à compreensível conclusão de que, se não fosse quem fosse, teria ouvido palavras gentis do comerciante da loja vizinha de sua casa de infância. Com vasta biblioteca em casa, teria aprendido tudo sobre os judeus e muitas outras coisas, sem intervalos comerciais e em livros mais parcimoniosos. Teria também sido desculpado imediatamente pelo encontrão involuntário aquele dia lá em Higienópolis e sido saudado pelo homem de barba grande, chapeuzinho e toga. Anos mais tarde, teria estacionado seu carro importado no valet do shopping daquele mesmo bairro. E no mês seguinte, teria recebido de cada amigo, além de um sorriso sem maldade, presentes os mais caros e úteis, comprados sem remorso à loja cujo dono seria um homem qualquer. Teria além disso festejado todos os seus fartos natais, três dos quais inclusive com a presença do esclarecido Sr. Albrecht Steiner, homem com quem certa vez compartilhara por acaso uma refeição kosher e desde então estreitara relações. Não teria tido amantes, apenas um caso de juventude de que gostaria de se lembrar quando as coisas com a Vera não estivessem bem. Na hora do jantar, admiraria pelo vão do balcão a paisagem com vaquinhas holandesas que teria comprado durante a lua-de-mel na Antuérpia. Durante certa semana de atribulações, teria aproveitado a insônia para ler versos da Torah e disso resultaria uma bela cena doméstica naquele apartamento à cavaleiro do Alto de Pinheiros, onde folgaria suas tardes e noites protegido dessa violência lamentável de que hoje se ouve falar. Todos os dias, antes de sair para o trabalho às 10h, ele deixaria na guarita do Marcão um café bem forte e, semanalmente, um pote daquele confeito que sua esposa tanto aprecia. Marcão seria um bom guarda privado, negro fortíssimo tomado às vezes de certo banzo, mas sempre admirável na sua fala polida. (E o que dizer dos dois belos olhos cor de leite, flutuando no escuro, a pupila esperta girando sobre o perímetro?) Apesar disso, ele tampouco guardaria amargores daquela vez que teve de livrar o filho dos dissabores de uma multa mediante pagamento de um trocado a um soldado da PM. O homem, afinal de contas, só estava fazendo seu trabalho (pelo qual aliás é injustamente mal pago). Jamais teria que lidar com uma vítima de estupro. E com os estupradores, só os duros agentes novaiorquinos teriam, naqueles policiais de mal gosto que seu filho assiste, sob protesto vêemente dele, subsequentemente arrependido de ter presenteado Pedrinho com a filmografia de Pasollini. Na ocasião de uma desavença envolvendo uma gerente da firma, teria sido tratado por senhor e, por isso, ouvido com atenção suas queixas diante da diferença salarial e das atitudes chauvinistas dos colaboradores. Também olharia com bons olhos as moças que andam de mini-saia no Clube Atlético Pinheiros, nisso contrariando inclusive certos maus humores da Vera (que naquele dia não estava bem). Deixaria-se arrebatar por palavras sobre o avanço dos costumes e a emancipação da mulher, aspecto imprescindível da luta pela vida livre, desrecalcada e mais equânime com a qual todas as pessoas de bem colaboram no limite de suas possibilidades. Teria amigos da classe média. Ou melhor, conhecidos. Seriam visitas ocasionais que, se não o tratariam como senhor tal qual a secretária, reservar-lhe-iam certa admiração implícita e sutil, cuidando de não ocupar muito as conversas com coisas mesquinhas, perguntando interessados sobre a saúde da família, respondendo com risos naturais a suas piadas nem sempre refinadas, apreendendo imediatamente o sentido de suas insinuações, prestando-se a interessantes discussões sobre as artes, o mundo dos negócios e as últimas notícias daquela vinícola especial da Borgonha. (só muitíssimo raramente, como antepasto, entrariam nessas conversas assuntos tão rombudos quanto o dissenso entre as forças de patrulhamento de São Paulo). Providenciando descanso mental e físico, a fim de manter sua forma invejável para os já completos 50 anos, praticaria também Tai-chi nas manhãs de sábado, procurando com isso preservar na semana um espaço para as atividades físicas que antes – é verdade - distribuíam-se entre a canoagem, o squash, a corrida, a equitação, o ciclismo e um futebol aqui e ali. Teria certa vez ouvido falar que os filhos de seus amigos praticam essa luta brutal que se quer defensiva, mas teria desde sempre atribuído isso a certa paranóia que tem a ver com a vida dos que estão um pouco a perigos, sendo obrigados a parar em semáforos que ele sobrevôa todos os dias em seu helicóptero de última geração.

Depois de certamente ter pensado nisso tudo, é possível que o delegado também tenha intuído que não detestaria judeus se as coisas tivessem lhe rendido na vida um pouco mais do que o indigno posto de delegado. Em todo caso, na impossibilidade de largar o posto e reformar a vida como gostaria, o delegado, que se chama José Alves Pereira dos Santos, preferiu continuar detestando judeus. E achou que não fosse incoveniente deixar coar um pouco de veneno sobre eles. De qualquer maneira, ele estava apenas tentando justificar seu abandono, em prosa solta, àquela moça simpática que, à pretexto de pedir uns B.O.s, acabou inquirindo-o sobre as ocorrências envolvendo negros, etnia contra cujo desrespeito ele e seus rapazes são os primeiros a se colocar.

É capaz que jamais venha a perceber ou lembrar a gafe que cometeu. Ao contrário de certas coisas que já viu neste mundo de que Deus deve estar um pouco esquecido...

quarta-feira, 14 de abril de 2010

Diário crítico

Caderno de trabalho, entrada do dia 16 de Abril. Ao que indicam anotações de 25 de Janeiro, 14 de Março e 1 de Abril (Cf.), esboço de romance, a ser extraído de uma reflexão pessoal a respeito de sua mudança para a capital:

O Sr. K preferia a cidade B à cidade A. "Na cidade A", disse ele, " as pessoas gostam de mim; mas na cidade B foram amáveis comigo. Na cidade A colocaram-se à minha disposição; mas na cidade B necessitam de mim. Na cidade A me convidaram à mesa, mas na cidade B...

Nesse momento a entrada é interrompida. Abaixo lê-se o seguinte texto (um poema, uma canção, uma anotação privada):

Quando você chegar
nesta casa vazia
entre depressa
lajote as saídas
põe cal nas paredes
remende as cortinas

e apague os seus passos
sempre às escondidas
dos olhos alheios
com terra batida

e troque os seus braços
por senhas em filas
sem fim nem começo
num guichê de mentira

É a última inscrição na folha do dia.

quinta-feira, 8 de abril de 2010

Il libero vingatore

Frei Caneca sentido Paulista. Pacotão por volta dos 30 caminha e bambeia na calçada. Bata roxa sobrando, calça jeans, sandália anabela. Maquiagem ridícula para um dia de sol, chapinha, óculos escuros.

Fala alto, enquanto a mão de pãozinho esmaga um LG b055-al contra a orelha.

Mas não, Luis! Nesta hora você não pode ter coração mole. O papai tem, a mamãe tem, a gente não pode ter... Não interessa, não interessa... se não aceitarem, a gente entra com uma ação de despejo... É muito simples. A lei tá aí pra isso...

Do meio campo, correndo, lá vem Massaro, camisa nove. Passa por um, dois, dá nó na defesa e faz vibrar a torcida napolitana. Chuta cruzado...

Fim de jogo. Fiorentina eliminada do campeonato.