terça-feira, 22 de junho de 2010

O fantasma da pequena área

Este texto surgiu como comentário à notícia sobre a mais recente briga de Kaká e Juca Kfouri. Segue abaixo o link

http://g.br.esportes.yahoo.com/futebol/copa/blog/daredacao/post/Kak-sai-do-tom-e-ataca-Juca-Kfouri?urn=fbintl,250361#mwpphu-container

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1.Futebol, política e entretenimento


Futebol e religião se misturam, sim, no Brasil. E, nessa mistura, são mais políticos do que as coisas públicas por aqui. Se política quer dizer "a maneira como a população trata assuntos de interesse público", no futebol seus desejos estão muito mais bem representados do que nas urnas. Inclusive com base na história recente. Há restos de demanda popular no Corinthians; é possível ler o processo de ascensão social dos imigrantes italianos no Palmeiras; a Portuguesa tornou-se um time menor ao mesmo tempo em que o sobrenome português tornou-se um detalhe irrelevante nas certidões de nascimento; todo mundo no "interior" do Brasil é flamenguista justamente porque o Flamengo é o time do povo só no Rio, estado-síntese do espírito malandro nacional. E, finalmente, o elitismo democrático sãopaulino equivale à aura cosmopolita do estado carro-chefe - a voraz locomotiva - do país.

Não dá pra ignorar esse tipo de "coincidência" entre a "tradição" dos times e a maneira como cada brasileiro se compreende. São marcas do processo histórico. É disso que se constituiu aos poucos a firme relação entre o jogo e as identidades no Brasil. A ignorância sobre a função simbólica do futebol torna-se portanto um problema do ponto de vista da compreensão do país. Uma problema porque outras diversões chegam à rodo com a internacionalização do mercado e desempenham funções emelhantes; porque hoje falar de futebol não significa necessariamente não ser preconceituoso e compreender bem a cultura popular. E, finalmente, porque o próprio futebol já não é o que era antes. Já não está mais tão evidentemente ligado à vida prática no país, e, nessa falta de vínculos, serve melhor à indústria do que a quem quer entender onde pisa.

Ou seja, se hoje em dia muito pouca gente torce pelo seu time por identificar-se conscientemente com ele, esse é um processo induzido. Um processo que acarreta também a dificildade de compreendê-lo como fenômeno real. Quanto mais os times tornam protagonistas de um espetáculo gigantesco; quanto mais eles produzem trilhões em, na esteira do futebol como um todo convertem-se em entidades (ou marcas) segmentadas em mil formas de fruição, menos o ritual dos campos tem a ver com a vida real das pessoas, que, no entanto, sustentam-nos, times e futebol, com um esforço de dedicação afetiva jamais visto.

Justamente isso é que permite dizer que, sim, o futebol é político. Mas, é claro, com a ressalva de que, no futebol, como na política, as decisões que compõem as verdadeiras regras do jogo estão cada vez mais além da consciência das pessoas - por sua a vez, a verdadeira base de sustentação do espetáculo.

2. Sob o viés de quem veste a camisa

Pois bem. Compreendido sob o viés do torcedor (ou fã - fanático - do futebol), esse processo coincide exatamente com o da transformação do "futebol-arte" em jogo multimilionário, globalizado e já não tão baseado no talento. Choram todos os que veem partidas medícores durante o ano inteiro: nenhum jogador hoje em dia tem o talento que tinha um Pelé. De fato, isso é uma verdade. Coerentemente, os torcedores já não são como antigamente, conhecem as regras, têm camisetas, vão aos estádios no ônibus da organizada. Por outro lado, entendem quase nada das minúcias da "grande arte". Pouco se pode apagar desse fato. E justamente por isso as queixas dos fãs são tão inócuas quanto o senso de realidade dos comentaristas que manda valorizar o jogo médio atual (e assim conservam seus empregos).

Entretanto, por mais que o futebol tenha se tranformado em uma diversão razoável à custo de tornar-se incompreensível, sobrevive ainda no ato de torcer justamente a mesma parte de idealização que caracteriza as queixas dos antigos pelo fim dos "tempos áureos". No fundo, é como se a casca de truculência e encantamento ficasse e o próprio futebol se esvaísse. Discute-se superficialmente as partidas; comenta-se com tédio a política; a religião parece uma prática arcaica, e o espetáculo continua.

Ora, isso só faz provar o quanto mesmo o menos encarniçado torcedor não pensa nas coisas que sempre sustentaram-lhe o alto valor na cultura brasileira. Claro. Pensar sobre futebol contraria a própria essência do costume de "torcer", com a qual, para gostar desse esporte ao mesmo tempo democrático e de tudo ou nada, cada simpatizante precisa se comprometer. Afinal, foi para estar afinado com a vida no país que seu "espírito" procurou o futebol. E ele não há de abandonar o achado tão cedo.

Não é culpa dele. O poder dessa crença, em si um poder profundamente político, é grande demais. Ao empolgar-se com futebol, o torcedor carrega para dentro de si essa magiquinha que reforça o vínculo instintivo e misterioso entre a beleza dos chapéus do Pelé e o espírito profundo do Brasil, cuja imagem mais perfeita está naquele passado de tolerância, labilidade e desrecalque que fez a glória da cultura brasileira como um todo. Por sua vez, essa mesma imagem, através da inconsciência e do ardor amador do torcedor contemporâneo, sustenta ilusões preciosas para a manutenção do status quo no presente. E isso tanto mais quanto menos se encontra nas ruas um rastro sequer do belo país.

Nesse sentido, não é mesmo permitido a nenhum torcedor tocar no passado do futebol. A todo preço deve ficar incólume o tempo em que meninos de rua, curtidos na cultura local, transformavam-se do dia para a noite em semi-deuses do esporte. Sim, no fundo sempre houve e sempre haverá um anjo dormindo no espírto de cada grande craque do passado. E todos sabem que a substância divina que anima os anjos é coisa secreta, inacessível a olhos e escrutínio humanos. Quando convém à ordem divina, no máximo Deus manda descer seus emissários à pequena área. E ali, tocando de súbito o ombro de uma jovem promessa, eles fazem irromper uma dessas jogadas que, hoje, não deixam de trazer um quê irremediável de saudade dos velhos tempos.

Inútil sugerir que em tal mistificação entra tanto de religião laica quanto entra nos gordos dízimos que Kaká envia todo mês para a Universal do Reino de Deus. Isso não parece chamar a atenção de ninguém. Exceção feita ao público que, muito embora não veja graça no jogo, involuntariamente acompanha um pouquinho de futebol, já que, afinal de contas, da graça e da desgraça divina ninguém consegue se esconder. Pois bem. Por todas essas razões arrisco dizer que somente a esse público recalcitrante está dado enxergar como de fato funciona a religião futeboleira lá dentro do coração do torcedor. E mais: juro de pé junto que justamente por isso é que Juca Kfouri, o anacoreta do futebol, persegue o impulso supostamente desespecializador de Kaká (aliás, seus comentários automaticamente lançam contra o jogador os mais ferozes leões da mídia eletrônica impessoal, arena onde nenhuma difamação é forte o bastante).

3. Nas trevas do coração do guerreiro

Então, vamos lá. Como se comportam esses 150 milhões de corações?

Bom, exatamente como a religião hoje faz menos, o futebol desvia a suas mais intensas vontades para o além-morte da arena sagrada, o estádio, onde ocorre a disputa pela honra que, na Terra, é impossível não macular. Ou seja, o fã de futebol, exatamente como o crente, nunca é um fã desinteressado. Ele toma parte em apenas uma forma de salvar-se inimiga de todas as outras, mas à brasileira, em esfera imaginária e com duvidoso respeito pluricultural às diferenças. Mesmo ciente de que aquilo não definirá sua vida real, ele se vê bem representado pelo seu proselitismo a cada campeonato. Pois se as brigas frias e diárias da vida não guardam rastro das grandes aventuras que o torcedor planejava quando menino, as dos jogadores preferidos conservam-nas oniricamente. Mas o movimento entre sonho e vigília é duplo, neste caso. O fato de o torcedor se empenhar na contemplação do rito sem poder abrir mão da distância contemplativa cobra direitos na vida real. Daí porque, mesmo sem saber para que time torcem os que lhe cruzam o caminho (ou quem são exatamente eles), o torcedor decodifica a vida enquanto embate geral entre o bem e o mal, onde guerreiros constituídos segundo tradições diversas estão brigando para cavar suas vitórias tanto quanto ele. E para alcançar tal fim valem tanto as boas obras quanto o arbítrio de Deus.

Em suma, admitido como uma diversão inocente, afirmado como disputa real pela felicidade imaginária, o futebol termina por ratificar a tomada de posição do torcedor na guerra incruenta sobre a qual se sustenta a vida semi-civilizada das camadas médias no Brasil. E nesse processo troca todas as formas modernas de se conceber a sociedade - com suas liberdade e opressões reais - pelas pré-modernas, ligadas às raças, tradições e compromissos culturais. Brincando um pouco, a agregação dos negros pela afirmação racial pode ser um sonho desmentido pela políticas culturalistas que trasnformam seus louros em formas de luta individual; o cultivo de tradições familiares pode ter se tornado uma piada no brechó da Vila Madalena cujos proprietários são uma família de gaúchos; os bolivianos são escravizados no Bom Retiro só porque são os mais recentes imigrantes. Mas o futebol ainda vive de fazer crer que o espírito brasileiro está na ginga do capoeirista; que o sul é um monobloco cultural separatista; que os bolivianos são os verdadeiros nativos da america latina e, como tais, cativos do poderio eurocêntrico.

Na terra em que brasões sempre foram exibidos para encobrir as negociatas e humiliações que as familias emigradas tiveram de cometer ou sofrer, esse é o verdadeiro espírito heráldico do torcedor.

4. O apelo comunitário do futebol - futebol e religião antes de 1960.

Mas se o futebol é como a religião, também a administração do futebol é (e sempre foi) como a das “repartições religiosas” – as igrejinhas e associações espiritualistas. A alucinação diária do torcedor não é sem fundamento. O próprio futebol espraia-se como instituição real. Sem deixar de ser um rito esportivo, mas tornando-se objeto de valor exatamente por isso, este jogo troca trabalho de fé por rendimentos.

Já trocava quando o Brasil ainda era uma feirinha de bairro e ainda troca agora que ele é uma loja de conveniência. Estou falando do dízimo, sim, que os ateus, os católicos e os orientalistas tanto criticam, mas também e principalmente de toda a estrutura de subsistência real da fé que é pressuposto mundano de qualquer atividade religiosa. Aos times de futebol antigos equivalem as irmandades e os terreiros; aos times modernos equivalem as grandes igrejas evagélicas atuais. Algum segredo nisso? Acho que não. Entretanto, a maneira como essa esquisita relação entre espiritualismo e futebol no caso do Kaká enerva a mídia e os torcedores "esclarecidos" tem algo de "secreto". Algo que a história do futebol (e do país) soterrou e que, de repente, vem à tona. O que será isso?

Vamos ao passado, então. E segure-se, coração patriota... Como se vivia a religião no Brasil antes da esmagadora ascensão das igrejas evangélicas? A nossa geração só vai se lembrar disso, lembrando como na infância as igrejinhas de bairro e as sacristias agrupavam o pessoal das redondezas em uma cultura comum. Vestígios dessa verdadeira rede de relações sociais de classe média sobreviviam nas barraquinhas de bingo e de tiro ao alvo das quermesses que hoje se realizam em pátios de igreja só por costume. Em meio às barracas de pipoca e algodão doce, entre uma e outra dentada no pãozinho com carne de panela, sempre aparecia Dna. Marta com uma rifa. E a vizinhança fazia o sinal da cruz esperando que a prenda fosse gorda. Função semelhante, acredito, desempenhavam (e, talvez continuem desempenhando) os terreiros e os sambas em bairros mais pobres, onde a vida religiosa, como no centro, nunca pôde se despregar dos pequenos empreendimentos. Mas como estamos, neste caso, nos anos 80, é claro que tudo isso já tinha a cara de diversão inocente, feita para esposas e crianças. E é claro também que a ela correspondia - como coisa mais séria e viril - o futebol.

Acontece que essa maneira "comunitária" de se viver a religião no Brasil não tem nada de gratuíta. Ela vem do abismo entre a cultura da elite e dos escravos, da separação entre o culto sério e o culto vulgar, do hiato entre a religião santa mantida às claras na capelinha do sinhô e a que sempre esteve imiscuída em negócios de providência miúda. Uma divisão que se tornou definitiva quando a igreja foi cortada dos assuntos públicos, processo que aqui nas nossas bandas foi levado à cabo pelo Marques de Pombal, ainda no século XVIII.

A hora era perfeita. Constatava-se o desenvolvimento do mercado e das camadas médias ligadas à mineração. Constatava-se igualmente que a igreja continuava suprindo essa nova gente de recursos e assim tornava-se mais importante do que a coroa - que só queria saber de derramas e outras extorsões. Ora, feito o desligamento, retirava-se da igreja a capacidade de articular a gente miuda das lavras aos bens de usufruto público que mais e mais ela iria reclamar. Não custa lembrar que a concessão esclarecida vinha depois de outras tentativas de pacificação menos sutis - como o esquartejamento do oligarca que, para pensar melhor, propagava ideais republicanos no Brasil colônia, Tiradentes.

Mas cortando a cabeça da igreja, nem por isso os membros deixavam de funcionar. Noutras palavras, sob a proibição da coroa, a religião como administração comunitária de benesses sobreviveu sob a forma daquilo que até hoje se pode constatar muito presente em Minas Gerais: as irmandades. Em que consistiam as irmandades? Em agregações filiadas santos padroeiros, por sua vez correspondentes a coordenadas "mudanas" como raça, pertencimento local, ofício, etc. A igreja não provia mais os filhos de mascates, tropeiros e mineiradores de escolas, mas a comunidade ainda sobreviva nas trocas de bens menores e outros socorros. Sendo menos neutro, as irmandades eram organizações que de maneira tão pouco declarada como a do Estado - só que nas esferas que o Estado já abandonava - tinham a função de "salvar e abandonar" conforme critérios de identidade e interesse próprios. Em suma, sob a base comum de crença, dentro da qual os grupos divergiam na interpretação do culto, a religião desenvolvia-se de acordo com as redes de identidades muito complicadas que se desenvolveram neste país multirracial e de contorno de classes pouco claros. E nesse contexto, a cada comemoração, as facções pugnavam em torno da salvação celestial, que, na prática, equivalia à ajuda mútua e a favoritismos. Daí porque, longe de compartilharem a riqueza, sob formas de juízos tão seguros e equânimes quanto o jogo e senso de solidadariedade cristã, as pessoas competiam pelos prêmios que, dependendo da situações, permitiam sobreviver ou desoneravam a renda incerta das lavras de alguns poucos gastos. É óbvio que quem tomasse maior parte nos negócios carolas garimpava às bênçãos mais generosas.

Pois bem. Acontece que a mesmíssima coisa, um século e meio mais tarde, dava-se em torno dos times de futebol de várzea. Alguns devem se lembrar da aura revestindo um tio ou primo que batia uma boa bola. No interior e nos bairros operários de São Paulo isso é muito frequente. Para os netos e bisnetos dessas potestades da várzea local de 1940, esses seres eram criaturas de exceção. Eles superaram as adversidade da má origem e ganharam a vida às custas do talento que Deus lhes deu, blablablá. Um pouco por isso, ainda em 1980, quando o filho nascia, cada família "torcia" para que o moleque fizesse pelo menos 30 embaixadas de olho fechado. Claro. A tal dádiva de Deus tinha um significado muito preciso: o talento do menino há pouco implicava também possibilidades na vida. As notícias de pobretões furando as condições e chegando a times de vulto internacional eram, obviamente, muito escassas; assim como havia sido um dia a distância entre a vendinha do seu Zé e, digamos, o truste dos Rothchild. Noutras palavras, como o capitalismo antigo não era internacional na escala que é, o futebol ficava na pequena escala que sempre ficou enquanto estava dividido como passatempo de grã-finos e cultura popular: como exceção, era caminho de intensa possibilidade de ascensão social (Garrincha, Pelé); como regra, era uma forma de gerir os restos da produção nas camadas médias e baixas. Mesmo no século XX, quando os grandes times começaram a se desenvolver, essa cultura local é que dava sentido ao grande espetáculo ouvido com fervor nos radinhos de pilha. E por isso, acompanhar o rito diário do grande futebol significava reforçar como legítima a outra prática: a das peladas semanais que, se botavam pouquíssima gente pra jogar com Pelé e Rivelino, salvavam muita gente de apuros e, principalmente, condenavam à mendicância e à cadeia um outro tanto.

Ora, é justamente essa base social nada romântica do futebol que sumiu de vista. Não só da consciência do torcedor como também da fachada limpa e apresentável do jogo atual. Neste exato momento, cada homem que veste uma camisa de time de bairro procura a iluminação súbita de seu craque multimilionário, cujos lances mais memoráveis ele tem gravado em cassete para os dias em que o mé não basta. E haja mé: se antes, exatamente como as irmandades, os times de várzea propiciavam ganhos a partir de uma disputa amigável por favores, hoje, o futebol de várzea (tanto quanto o profissional) não rende nada ao cidadão de classe média, rendo migalhas aos pobres e enriquece apenas aos grandes jogadores e aos empregados das sucursais internacionais da mídia (que vivem como cracas no queixo do tubarão). Aliás, exatamente como a igreja só rende mesmo aos pastores (e tanto mais quanto mais ruidosos e politiqueiros sejam e mais malas de dolares possas carregar para a Suíça).

Instalado como passatempo de sinhozinho, o futebol penetrou tanto no Brasil justamente porque, pouco a pouco, tornou-se um jeito de os pobres negros e a miserável classe média branca "agregarem valor". Valor aliás arrancado legitimamente de si mesmos (já que tinham e não tinham como sobreviver com um mercado interno tão escasso quanto o que havia no Brasil antes da década de 40). Era como o carteado. Era como o jogo do bicho, o lugar em que cada pobre diabo "fazia sua fezinha" e às vezes tirava a sorte... média. Com a modernização, essa pré-história do futebol-macumbeiro-jogo-do-bicho-semi-marginal foi obliterada. À despeito, é claro, de continuar acontecendo nos lugares em que a condição de vida é semelhante, sem os ganhos correspondentes. Nada contra, não fosse o fato de a pelada do fim de semana não salvar mais ninguém da pobreza. E isso é tão mais triste quando a gente percebe que seu lugar de providência foi tomado pelo terceiro setor e o narcotráfico, e o de despêndio, pelo crediário das Casas Bahia, esse esfolador barulhento.

5. O ebó moderno de Káká x a fúria independente do torcedor esclarecido

Dito isso, o que tem Kaká a ver com toda a historia?

Pois bem. Marcelinho carioca era crente, muitos jogadores são crentes. Mas quando Kaká - jogador branco, criado no São Paulo e parecido com o boneco Ken - acende uma vela para seja lá qual for sua igreja, ele está mexendo nas regras do futebol esclarecido. Não só nas do espetáculo maroto de todas as noites (cujo horário a Globo determina), como também nas da própria indústria futeboleira. O caso não chega a ser grave, mas é suspeito. Ronaldinho com suas noitadas transsex provocou piadas, mas não conseguiu semelhante façanha. Pois, diferentemente dele, Kaká não só se presta como imagem (ou "santinho") para um comercial da Nike, como também está trazendo para o seio do futebol contemporâneo uma prática escancaradamente arcaica, duvidosa. Se o país fosse o mesmo, alguns milhões de suas contas bancárias estariam - ou só na imaginação dos torcedores estariam - tirando famílias da pobreza. Mas como a religião e o jogo populares já não têm o poder que tinham antigamente, quem leva seu bocado é uma outra indústria que não produz nada além de esperança para os pobres. Essa religião é que o assinante da Placar ataca. Primeiro, porque ela não rende nada a quem já anda a perigos. Segundo, porque a esquisitisse arcaica traz reminiscências da sobremesa cavada a gols pelos mais velhos...

O poder de choque disso só podia ser muito maior do que o da quebra de qualquer tabu sexual por um jogador excêntrico, já meio gordo e, ademais, menos branco. O ebó moderno de Kaká é forte demais. Suas preces e seus milhões correndo para o bolso dos gangsters da salvação fazem com que o público pagante e assinante da ESPN torça o nariz vendo ali, bem diante dos seus olhos, aquilo que com muito custo foi reprimido pelos seus ascendentes justamente a fim de que, para seus filhos, o futebol pareça ser isso que parece ser hoje: uma diversão democrática e a laica. O susto com as demonstrações públicas de fé vem, é claro, para reprimir qualquer tipo de aproximação entre o passado do futebol e as teatralidades correlatas que os crentes pobres da Universal de Deus fazem em pequena e desesperançada escala. E o ranço que recai contra isso é o ranço de gente que não gosta de ver um costume de pobre invadindo aquela que essa mesma gente cinicamente considera a mais democrática das diversões modernas. As caríssimas camisetas oficiais, o canal de assinatura com cobertura completa, as alas vips, as copas mundiais, bem como a discussão com peritos existem exatamente para manter bem estabelecida a distância

6. Epílogo - fim do fairplay ou Pai, se me abandonares ao triste 0 x 0, eu ainda com mais sofreguidão te servirei.

Faz sentido. Se o torcedor, hoje, sob a desculpa de cultivar um hábito querido, procura distintivos de classe que o comprovem como um torcedor mais competente, é justamente porque, tanto quanto os menos competentes, ele já não pode tirar a sorte miúda na "caixinha de surpresas". Nem daí, nem do truco, do poker, da cacheta, do bingo. Em certo nível confuso de sabedoria, todo torcedor sabe disso e enxerga no futebol uma dessas forças que magicamente fazem com que a violência instituída se justifique quanto mais lhe favoreça o livre usufruto do roubo coletivo e menos lhe pesem os desconfortos de consciência decorrentes. Tomando a forma de jogo, isso não tem mal nenhum. Alí, em terreno sublimado, cada um pode dizer que quer ver os outros chafurdarem na derrota e assim gozar as glórias de ser campeão.

É assim que o futebol tem funcionado no Brasil, desde sempre. O problema, no entanto, começa a aparecer quando a dificuldade da salvar-se da miséria geral já está tão forte que já não permite que o torcedor confie apenas em seu amor pelo esporte. Esse, desde que a indústria fez do futebol um sítio de pequária intensiva, já não proporciona por si só grandes emoções. Ou então, a gente poderia dizer que os sufocos da situação de subemprego e desemprego superam-nas, obrigando o dito cujo a esforços de fanatismo displicente que nem mesmo seu avô compreenderia. Consequentemente, o amante de futebol, em nome de manter acesa a chama, precisa cada vez mais se recobrir da aura de destreza e determinação com que a propaganda reveste os craques de futebol. A contemplação distante do espetáculo se torna tão mais imperiosa quanto mais seu subtexto obsceno ameaça romper à luz do dia. Justamente por isso é preciso relativizá-la, encurtar imaginariamente a distância, fazer com que cada um, conoisseur ou não, tome parte no campo, leve às ruas as cores do time amado. Esse é o trabalho realizado pelo merchandise, que estende sob preços diversos até ao mais comum dos mortais badulaques futebolísticos.

Exatamente por essa democratização compesadora da imagem do futebol, seu caráter de luta baixa vem à tona. Quanto mais o torcedor compra gato por lebre, mais a imagem arrojada e bela do passado futebolístico - cuja força vinha da imagem de belos corpos atléticos constituídos como que espontaneamente - reverte-se no seu contrário. Um breve passeio pelas ruas em épocas em que o futebol não é uma histeria geral demonstra que a preferência por adereços de futebol desponta nos "manos" de subúrbio (não os de verdade): nos filhos de donos de microempresas. A pletora das bandeiras recobre preferencialmente hoje essa diversidade de lumpen-classe-média-baixa que não esconde a disposição de ir às vias de fato nem mesmo quando fala. Só neles a camisa veste bem - não no playboy que conhece todos os resultados de jogos desde 1930; não no moleque de rua que ostenta no peito a marca adidas. Neles, os que, recém-emersos do abismo, para não cairem de novo no fundo do poço, praticam a violência vulgar que nos demais toma a forma de assaltos ou de finas ironias. Ora, exatamente por isso, a imagem do futebol como um todo evoca a figura que constitui o maior pesadelo de tal espécime: a dos aposentados e desempregados que lotam as praças de subúrbio com suas velhas caixinhas de dominó - a inadequação da imagem residindo apenas no fato de que uns, cientes da própria situação, já perderam a voz e outros, na esperança de algum olheiro divino ou de ensurdecer o vizinho, ainda gritam.

Disso tudo se tira o seguinte: as esperanças que eram remediadas no futebol de várzea antigo de fato sobrevivem na torcida pelo futebol high-performance, mas como um fantasma. E esse, justamente, é que é o seu demoníaco sentido político. Um sentido que só tem na religião sua melhor expressão porque a religião nada mais é do que a protoforma reprimida da política moderna, precisamente a que medrou nos países em que a desigualdade extrema instalava os pobres e as classes médias como marginais da vida pública. Como se sabe, em contexto diverso, a religião era a forma de política que predominava na Europa, antes que a famigerada burguesia, uma vez completamente instalada no poder, inventasse a primeira estratégia de dominação baseada no consenso consciente dos dominados: a democracia.

Pensando nisso, a gente poderia dizer que, encantado com o jogo que já não tem nada de magia e desesperado com o risco de tornar-se um derrotado, é justamente a favor dos dribles que a vida dá na sua consciência de cidadão abandonado e de peça sem valor no mercado de trabalho que o torcedor grita "gol".

terça-feira, 15 de junho de 2010

Em defesa do delegado

Da para desistir ?

Para quem não sabe eu faço doutorado em psicologia social na USP e minha pesquisa é sobre relações raciais e racismo no Brasil .Hoje acordei cedo com o propósito de ir na delegacia de crimes raciais e delitos da intolerância –DECRADI- pois um amigo meu precisava de alguns Boletins de Ocorrência sobre crimes de racismo. No metro em direção a Praça da Sé entrou uma senhora negra com sua filha, que também era negra, no banco ao meu lado, a menina começou a chorar ,e para acalmar a mãe tirou uma boneca loira de olhos azuis para a menina brincar. Neste momento eu pensei : Que merda ! desde cedo esta criança vai introjetar como padrão de beleza loiras de olhos azuis .... Eu se fosse a menina teria começado a choras mais ainda! Rs Pois, imagine que dificilmente esta mãe irá conseguir achar para comprar em uma loja popular na cidade de São Paulo uma boneca negra para a filha brincar....Bom, chegando à delegacia de crimes raciais o delegado responsável pelas queixas de crimes raciais e intolerância me atendeu dizendo que havia deixados os B.Os em sua casa. Eu que estranhei um delegado levar os B.Os para casa perguntei se ele também estava fazendo pesquisa sobre o assunto, o delegado educadamente me convidou para sentar e começamos a conversar sobre o assunto. Perguntei ao delegado qual era o grupo que sofria mais ataques, ele me respondeu que primeiramente as torcidas de futebol é que mais causavam violência, e depois disse que os grupos neo-nazistas costumavam atacar negros, homossexuais e lugares de judeus como sinagogas, cemitérios e etc... Fiquei curiosa sobre o assunto e perguntei mais como eram estes ataques, e eis que vem a resposta do delegado:---- Porque você sabe né ? Judeu ninguém gosta, nem agente aqui da delegacia nem os punks, nem os neo-nazistas, nem os ricos nem os pobres... Só eles mesmos conseguem gostar deles, e olhe lá! E como eles são cheios de dinheiro (mostrando com a mão o sinal de dinheiro) os casos de ataques eles mesmos chamam a própria segurança e acabam não precisando da gente. Eu que sou judia, e pesquiso crimes raciais contra negros no Brasil fiquei tão sem palavras que não consegui responder (que raiva). Agora me pergunto: Se este é o delegado que trabalha contra queixas de intolerância e racismo, para quem iremos reclamar dele mesmo ?

Comentários:

da pra insistir?Infelizmente L. a gente sabe de 'cadeirinha' que as vagas no servico publico brasileiro sao ocupadas em sua maioria por pessoas que ignoram o que estao fazendo (ignorantes). Infelizmente todas estas lutas diarias que nos empenhamos por uma "sociedade mais igualitaria", na pratica, nos geram na maioria das vezes, sentimentos de indignacao, estranhamento, solidao, injustica e tristeza. Nao tem jeito nao, ou a gente desiste, ou insiste! ...



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Em defesa do delegado

O delegado desde criança não vai com a cara dos judeus porque, certa vez, sob doce pressão da mãe, foi obrigado a granjear desconto na loja da esquina e ouviu do comerciante palavras duras que nunca mais esqueceu. O delegado guarda mágoa dos judeus, já que, pouco depois do incidente, ouviu de um amiguinho que passou por situação semelhante que aquele cara devia ser judeu e, como tal, pertencente a uma raça que salva o seu e quer que tudo o mais se exploda. Daí em diante ele não jamais aceitou sequer uma carona no guarda-chuva de um judeu (mesmo em noites de tempestade). O delegado passou a torcer contra os judeus desde que, certa madrugada, quando era adolescente, zapeando a TV, logo depois de ouvir as palavras do pastor Silas Mafagafo e os gemidos de êxtase correspondentes, acabou assistindo por acidente a dois documentários na Cultura: um sobre o holocausto, outro sobre Israel. Desde então, por alguma reminiscência infantil, ele resolveu que o lugar dos judeus é lá naquele país, onde eles podem andar à vontade de barba grande, chapeuzinho e toga, matando palestinos aos borbotões. O delegado às vezes prende mentalmente os judeus que lhe cruzam o caminho, pois, um belo dia, quando ainda era aluno da ACAPOL, estava andando por Higienópolis e trombou com um homem de barba grande, chapeuzinho e toga, que, irritado, resmungou, à despeito de seu uniforme a sigla conhecida, coisas muito ofensivas numa língua desconhecida. Isso, além de indispô-lo ainda mais, o fez querer mais ainda ser delegado. É que, não sendo ainda policial, ele não pôde reter o hostil transeunte por assédio moral, ou por atravessar fora da faixa; e, já sendo policial amador, não pôde responder de maneira menos autorizada pela instituição. O delegado tem arrepios quando ouve falar de judeus, porque, mais tarde, quando foi deixar sua lista de casamento na butique do Shopping Higienópolis, se deu conta de que nenhum dos seus convidados poderia comprar coisas lá. E se comprassem, certamente lhe cobrariam a desfeita com piadas deselegantes (por mais que sua esposa caprichasse no brigadeiro, por mais cara que fosse a lembrancinha). O delegado foi pegando repulsa pelos judeus, já que certa vez, depois da última aula do semestre na PUC, foi tratado como empregado ao atender uma ocorrência de roubo na sinagoga (que, talvez para amargar ainda mais a desfeita, garantiu-lhe a janta aquela noite). Hoje ele não se lembra se isso aconteceu com ele ou com um amigo antigo de faculdade. Afinal de contas as ocorrências são muitas, principalmente na época do natal, festa bacana que os judeus ignoram. O delegado passou a considerar os judeus, definitivamente, uma raça herege quando, certa noite, um grupo de maus elementos entrou em sua casa lá na Penha e rapelou tudo, inclusive as coisas boas que datavam do casamento. Para completar a crueldade, os safados deixaram pregado na mesa de centro um bilhete ressumando palavras de vingança (especialidade do Deus judeu). Para trás ficou apenas imagem do Deus-menino, infinita fonte de bondade e perdão, fixada na parede de azujelos amarelos da cozinha. Foi então que ele se deu conta do quanto aquela imagem, que sempre ignorava no repasto matinal, vinha reconfortando-o. Muito mais aliás do que os remédios, as noites no bordel, as duas amantes e o forró de sexta-feira, que já não funcionavam tão bem como antigamente. Recentemente o delegado passou a declarar-se sutilmente como inimigo dos judeus, pois deu-se conta de que, sempre ricos, suprem sua única necessidade de segurança com o setor privado, e assim transformam o trabalho dos policiais em um produto tão barato quanto aqueles com que a maioria de seus amigos o brindaram no casamento, nem por isso poupando-o de piadas deselegantes sobre a falta de variedade da culinária doméstica. O delegado às vezes, sozinho em seu escritório, vitupera contra os judeus, quando lembra que nem a segurança privada, nem os soldados em ronda fizeram nada para impedir aqueles desgraçados que levaram seu filho ao caixa eletrônico, extorquiram o pobrezinho e deixaram em sua testa uma cicatriz que até hoje não saiu. O delegado tem os judeus como algo que não desce na garganta, porque ouviu barbaridades daquela senhorita de mini-saia violentada na Bela Vista. Desde então concluiu que - pai, porque me abandonaste? - resta a ele proteger a classe média dos pobres menos dóceis, tarefa com que a segurança privada, muito mais equipada e bem paga, colabora modicamente e só em bairros onde recebem cafés mais bem adoçados para fazê-lo (e às vezes, é verdade, um ou outro brioche). O delegado já nem esconde que preferia ver todos os judeus mortos, afinal a força foi duramente criticada no ano retrasado, quando reprimiu o protesto da Polícia Civil, justamente por um jornalista judeu. O delegado tremelica de sentimentos violentos contra os judeus porque acha que, se hoje fosse dono de uma empresa de segurança privada chamada David Star e de uma academia de Krav Maga, protegeria apenas os rico e assim seria visto só pelas qualidades que possui, especialmente a de zelar pela paz dos ricos, sendo desonerado das falhas de educação, da origem social pouco ilustre, do olerite maculado pelo carimbo Estatal, dos benefícios da carteira assinada, ou mesmo do posto de xerife de uma cidade sem lei.




Enfim, o delegado afinal de contas chegou à compreensível conclusão de que, se não fosse quem fosse, teria ouvido palavras gentis do comerciante da loja vizinha de sua casa de infância. Com vasta biblioteca em casa, teria aprendido tudo sobre os judeus e muitas outras coisas, sem intervalos comerciais e em livros mais parcimoniosos. Teria também sido desculpado imediatamente pelo encontrão involuntário aquele dia lá em Higienópolis e sido saudado pelo homem de barba grande, chapeuzinho e toga. Anos mais tarde, teria estacionado seu carro importado no valet do shopping daquele mesmo bairro. E no mês seguinte, teria recebido de cada amigo, além de um sorriso sem maldade, presentes os mais caros e úteis, comprados sem remorso à loja cujo dono seria um homem qualquer. Teria além disso festejado todos os seus fartos natais, três dos quais inclusive com a presença do esclarecido Sr. Albrecht Steiner, homem com quem certa vez compartilhara por acaso uma refeição kosher e desde então estreitara relações. Não teria tido amantes, apenas um caso de juventude de que gostaria de se lembrar quando as coisas com a Vera não estivessem bem. Na hora do jantar, admiraria pelo vão do balcão a paisagem com vaquinhas holandesas que teria comprado durante a lua-de-mel na Antuérpia. Durante certa semana de atribulações, teria aproveitado a insônia para ler versos da Torah e disso resultaria uma bela cena doméstica naquele apartamento à cavaleiro do Alto de Pinheiros, onde folgaria suas tardes e noites protegido dessa violência lamentável de que hoje se ouve falar. Todos os dias, antes de sair para o trabalho às 10h, ele deixaria na guarita do Marcão um café bem forte e, semanalmente, um pote daquele confeito que sua esposa tanto aprecia. Marcão seria um bom guarda privado, negro fortíssimo tomado às vezes de certo banzo, mas sempre admirável na sua fala polida. (E o que dizer dos dois belos olhos cor de leite, flutuando no escuro, a pupila esperta girando sobre o perímetro?) Apesar disso, ele tampouco guardaria amargores daquela vez que teve de livrar o filho dos dissabores de uma multa mediante pagamento de um trocado a um soldado da PM. O homem, afinal de contas, só estava fazendo seu trabalho (pelo qual aliás é injustamente mal pago). Jamais teria que lidar com uma vítima de estupro. E com os estupradores, só os duros agentes novaiorquinos teriam, naqueles policiais de mal gosto que seu filho assiste, sob protesto vêemente dele, subsequentemente arrependido de ter presenteado Pedrinho com a filmografia de Pasollini. Na ocasião de uma desavença envolvendo uma gerente da firma, teria sido tratado por senhor e, por isso, ouvido com atenção suas queixas diante da diferença salarial e das atitudes chauvinistas dos colaboradores. Também olharia com bons olhos as moças que andam de mini-saia no Clube Atlético Pinheiros, nisso contrariando inclusive certos maus humores da Vera (que naquele dia não estava bem). Deixaria-se arrebatar por palavras sobre o avanço dos costumes e a emancipação da mulher, aspecto imprescindível da luta pela vida livre, desrecalcada e mais equânime com a qual todas as pessoas de bem colaboram no limite de suas possibilidades. Teria amigos da classe média. Ou melhor, conhecidos. Seriam visitas ocasionais que, se não o tratariam como senhor tal qual a secretária, reservar-lhe-iam certa admiração implícita e sutil, cuidando de não ocupar muito as conversas com coisas mesquinhas, perguntando interessados sobre a saúde da família, respondendo com risos naturais a suas piadas nem sempre refinadas, apreendendo imediatamente o sentido de suas insinuações, prestando-se a interessantes discussões sobre as artes, o mundo dos negócios e as últimas notícias daquela vinícola especial da Borgonha. (só muitíssimo raramente, como antepasto, entrariam nessas conversas assuntos tão rombudos quanto o dissenso entre as forças de patrulhamento de São Paulo). Providenciando descanso mental e físico, a fim de manter sua forma invejável para os já completos 50 anos, praticaria também Tai-chi nas manhãs de sábado, procurando com isso preservar na semana um espaço para as atividades físicas que antes – é verdade - distribuíam-se entre a canoagem, o squash, a corrida, a equitação, o ciclismo e um futebol aqui e ali. Teria certa vez ouvido falar que os filhos de seus amigos praticam essa luta brutal que se quer defensiva, mas teria desde sempre atribuído isso a certa paranóia que tem a ver com a vida dos que estão um pouco a perigos, sendo obrigados a parar em semáforos que ele sobrevôa todos os dias em seu helicóptero de última geração.

Depois de certamente ter pensado nisso tudo, é possível que o delegado também tenha intuído que não detestaria judeus se as coisas tivessem lhe rendido na vida um pouco mais do que o indigno posto de delegado. Em todo caso, na impossibilidade de largar o posto e reformar a vida como gostaria, o delegado, que se chama José Alves Pereira dos Santos, preferiu continuar detestando judeus. E achou que não fosse incoveniente deixar coar um pouco de veneno sobre eles. De qualquer maneira, ele estava apenas tentando justificar seu abandono, em prosa solta, àquela moça simpática que, à pretexto de pedir uns B.O.s, acabou inquirindo-o sobre as ocorrências envolvendo negros, etnia contra cujo desrespeito ele e seus rapazes são os primeiros a se colocar.

É capaz que jamais venha a perceber ou lembrar a gafe que cometeu. Ao contrário de certas coisas que já viu neste mundo de que Deus deve estar um pouco esquecido...

quarta-feira, 14 de abril de 2010

Diário crítico

Caderno de trabalho, entrada do dia 16 de Abril. Ao que indicam anotações de 25 de Janeiro, 14 de Março e 1 de Abril (Cf.), esboço de romance, a ser extraído de uma reflexão pessoal a respeito de sua mudança para a capital:

O Sr. K preferia a cidade B à cidade A. "Na cidade A", disse ele, " as pessoas gostam de mim; mas na cidade B foram amáveis comigo. Na cidade A colocaram-se à minha disposição; mas na cidade B necessitam de mim. Na cidade A me convidaram à mesa, mas na cidade B...

Nesse momento a entrada é interrompida. Abaixo lê-se o seguinte texto (um poema, uma canção, uma anotação privada):

Quando você chegar
nesta casa vazia
entre depressa
lajote as saídas
põe cal nas paredes
remende as cortinas

e apague os seus passos
sempre às escondidas
dos olhos alheios
com terra batida

e troque os seus braços
por senhas em filas
sem fim nem começo
num guichê de mentira

É a última inscrição na folha do dia.

quinta-feira, 8 de abril de 2010

Il libero vingatore

Frei Caneca sentido Paulista. Pacotão por volta dos 30 caminha e bambeia na calçada. Bata roxa sobrando, calça jeans, sandália anabela. Maquiagem ridícula para um dia de sol, chapinha, óculos escuros.

Fala alto, enquanto a mão de pãozinho esmaga um LG b055-al contra a orelha.

Mas não, Luis! Nesta hora você não pode ter coração mole. O papai tem, a mamãe tem, a gente não pode ter... Não interessa, não interessa... se não aceitarem, a gente entra com uma ação de despejo... É muito simples. A lei tá aí pra isso...

Do meio campo, correndo, lá vem Massaro, camisa nove. Passa por um, dois, dá nó na defesa e faz vibrar a torcida napolitana. Chuta cruzado...

Fim de jogo. Fiorentina eliminada do campeonato.

terça-feira, 27 de outubro de 2009

Três flechas

I


Quarta-feira da semana passada, de lá de cima da Cadedral da Sé, uma gárgula ganhou vida e atirou flechas ao leu, encomenda do chefe emitida com urgência no dia anterior. Não deu no jornal. Os poucos transeuntes do centro, nessa hora, apertavam o passo e em nada repararam. O tráfego terrestre, como o aéreo, escoou inalterado. Não houve desastres de vulto, sofrimentos ruidosos ou alegria excessiva em virtude do ocorrido. Mas o fato é que a danada da criaturinha, às 0:00:00 hrs da quarta-feira passada, dia 21/10/2009, ensaiou um daqueles pulinhos estáticos, gargalhou baixinho e deu três fatídicos disparos.

No primeiro, cuspiu uma flechinha preguiçosa, cujo destino veio a lume já na quinta-feira, às 2 da manhã, na pista de dança de uma birosca moderna da R. Augusta.

As setas infernais, como se sabe, são invisíveis e atravessam matéria muito mais densa do que o concreto. Fazem, no entanto, um barulho considerável. Por isso é de se admirar que, de toda a população do bar, nem mesmo o mais detalhista dos habitués a tenha visto em seu trajeto sinuoso. Pode ter sido também a banda, que enebriava as plausíveis testemunhas, tocando alto o contrabaixo bomp-bomp, sob o trompete ganindo cachorro e a cantora engrolando francês de quebrados quadris e mãozinha leve na cintura. Em todo caso, só quem viu foi a própria moça atingida, amiga perdida mais bêbada da aniversariante. Coitada! Mal se desvencilhou do doidão de dread, foi presa fácil do tiro do arqueiro: levou certeiro no colo moreno palpitante, bem debaixo da correntinha de único pingente ostentando discreta e prateadamente uma letra C. Como também bebia o favorito da noite (vodka/redbull), tomou banho da mistura "wake up", braços, queixo, tudo ensopado. Além do referido pingente e a franja escorrendo, cobrindo a boca mecânica dizendo "você viu o que aconteceu?" bem de pertinho pra alguém que balançou a cabeça e continuou a dançar

II


Já a segunda seta demorou mais. Caiu na sexta.

Diabos são informados. Pelo menos é o que vi naquele filme do Denzel Washington em que um arcanjo do mal toma as pessoas pelos segredos, se hospeda em seus corpos e sai cantando Rolling Stones. Este, espertinho, já sabia da nova lei anti-fumo. Por isso, dois dias antes, alçou o arquinho a 76º59', retesou a corda de tripa de bode e, vlém, mandou ver. E lá estava um amigo do meu primo no bar do Joca Vereador, por volta das 04:00:00 hrs, pedindo uma cerveja, tranquilo, quando, rolando macio da área de fumantes, doravante sempre descoberta, chega a alvejada.

Desta vez o efeito do tiro foi mais drástico. A seta estava inoculada com uma poção que a transformou, da cintura para baixo, em uma empilhadeira bulldozer. Da cintura pra cima, estalava a bluzinha com estampas cubistas, pois o tronco, ora inchado, quase cedera, impelido com vigor pelas engrenagens que o sustentavam. Só o cabelo continuava impecável, preso com elástico num coque pedrita, de modo que, distraídos, os convivas nada perceberam. Só esse meu indireto informante é que notou, quando subitamente a carne fina do joelho esfolar na borracha sintética, o calorzinho subindo um segundo depois. Virou, olhou; era ela.


III


Vinha com os olhos acesos, trocando cores sob a luz de estrobo. Não falou nada. Só chegou bem de pertinho dele para insinuar uma dancinha (não se sabe como, pois tratores não fazem curvas em espaço tão exíguo). E esteve prestes a engoli-lo, silenciosa e elegantementeno justo momento em que os habitantes do boteco cantavam alto Michael Jackson, assim prestando homenagem ao rei do pop à sua maneira. O que aliás teria acontecido, não fosse, é claro, a argúcia interioriana deste meu compadre - hoje como ontem, vivo, bem aventurado e prestes a me contar a história, que ouvi no dia seguinte.

Como eu disse antes, os diabos são informados. Outro dia, numa entrevista no canal sete, vi um deles falando sobre transmigração das almas. Devem saber muito de metafísica, portanto. Letrados eles também são - afinal, fizeram inúmeras incursões pela literatura. Chegaram sem problemas até mesmo à idade da alquimia, dos segredos elementares da matéria e dos números arábicos. Já quanto à ciência, parecem ter óbvias limitações. O que dirá em administração!?

Foi o que descobri quando, avisado dos primeiros atentados, peguei uma câmera e fui para as ruas descolar um furo. Calculei que, se houvesse regularidade nas coisas do mal assim como há nas de Deus, sábado seria meu dia, ou melhor, minha madrugada de sorte. Só quando cheguei na Av. Paulista, local altamente provável de ataque, é que me dei conta da armadilha, ou então da falta de planejamento daquele cujo nome não se diz. Ele deve ter mesmo um parafuso a menos (ao contrário da miss empilhadeira). Uma volta pela terra ensolarada definitivamente lhe faria bem, pois o calor e a umidade dos quintos dos infernos não devem fazer muito bem pra cabeça.

IV


Mas, enfim, vou contar meu fiasco.

Cheguei cedinho ao local, antes mesmo que o primeiro camelô montasse sua banquinha. Armei meu tripé, coloquei o bonesinho In Dog we trust e fiquei por ali, uma duas, três horas. A manhã nasceu preguiçosa como sempre, esquentado aos poucos as encostas dos prédios, montando alentada sua sinfonia de ruídos. Até que, num dado momento, quando o sol estava quase a pino, aquela considerada a mais democrática das vitrines da América Latina foi integralmente tomada por bilhões e bilhões de modernetes e culturetes, via de regra andando aos pares. Meu furo tinha-se eclipsado, eu percebera. Mas ainda fiquei por ali, o cotovelo na coxa do bandeirante, dando como ele as costas à Consolação, sem ver no horizonte o Paraíso, sol na moleira, que esquentava mais graças à veleidade do cão.

Pudera. Se o primeiro ataque se deu por volta das 2h da manhã e o segundo às 4h, o terceiro só poderia ter acontecido às 6h da manhã, momento em que o sol, embora fraco, já teria preenchido de luz todo aquele envidraçado corredor. E como todos sabem, enviar arqueiro a essa hora do dia seria assinar acordo de abrir fogo com Deus, coisa que não se faz. Nem mesmo o homem em pessoa seria tão louco...

Esgotado, voltei para casa e desmontei na cama. Dormi pouco.

V


Quando no dia seguinte a tarde ainda raiava forte, me senti mais refeito de toda a presepada e contente por ainda dispor do fim de semana para colocar a cabeça no lugar. Desci rápido as escadas do prédio e cruzei a praça aqui em frente de casa, um pouco mais movimentada do que de costume. Em seguida, passei na padaria, comprei um café com leite pra levar, passei a mão num jornal, sentei-me no banco.

O sono devia ter me feito bem, pois o dia respirava tão vivo quanto meu corpo agora refeito da tensão prolongada do fim de semana. Era gostoso o peso do jornal gordo de sábado no meu colo, esperando para me trazer as notícias do dia. Eu também mal podia esperar. Arranquei uma a uma as páginas laminadas que anunciavam geladeiras, fogões, panelas de pressão, celulares, mp3 player, uma grande produção musical e modernizações nos caixas eletrônicos do Unibanco. E ali, debaixo das notícias de ataques terroristas no Iraque, da investigação da mais recente obra do PAC, das chamadas para o caderno teen e do anúncio da reformulação do caderno de cultura, podia-se finalmente ler algo em letra miúda, anunciando o tema do caderno Cotidiano.

Leia depoimentos sobre projeção fantasma no Richard Harris. Grupo de teatro é escomungado por Dom Paulo Evaristo. Apreendidos câmeras e laptops contrabandeados que serviram para edição do pornô Três devassas no altar. Devotos de Santa Cecília, Santa Cruz e Madalena planejam manifestação pacífica de protesto neste domingo.

segunda-feira, 26 de outubro de 2009

Onde o pulso faz a curva

Segunda-feira à noite, chuva fina impertinente. Um cigarro, dois cigarros, três, quatro, fim. Preguiça de sair de casa. Dez horas, onze horas, meia-noite: o siricotico do maço acabado atinge enfim o limite do insuportável.

Capote, meias, pau no porquinho, hey ho.

Corifeu em silêncio. Indo, só o chlap-chlap dos tênis furados, agora ensopados, e o tilintar de trinta e quatro moedas. Trocando em miúdos, cinquenta passos e um LM azul. Depois, de volta pra toca - a cabeça, que está lá, espera anuviada.

Um sino agudo soa suas doze badaladas sempre de quatro em quatro. Marotos acentos no tempo fraco.

Não vem da igreja, que fica pra lá da Providência, longe alguns quarteirões deste pedaço inóspito de concreto, esta incansável betoneira, este contínuo canteiro de obras interrompidas a cada fim de gestão. Não. Nada retine neste rebotalho de bairro em cruzamento até 2012 - quando enfim chegará a nova linha do metrô, arrematado pela prefeitura por alguns cobres.

Não. Vem do triângulo ausente, marcado na Casa do Norte, mesmo quando não toca. Mesmo quando ninguém dança e universitários aos gritos bebem cerveja embora o violeiro, voz grave, rouca e doce, mão precisa, Tim Maia nas cordas de aço.

"Pois não?"

Faço o pedido. O swing anima brincadeiras.

"Desculpa, assaltei a igreja..."
"Tem problema. A gente até prefere..."

Minhas mãos se enterram, as duas, no mesmo bolso. Três moedas caem no chão; as demais, verto com cuidado na mão do balconista sério e calmo (uns fiapos de linha branca vão junto; eu cato, meio envergonhado).

"Tá aqui, trinta e quatro de dez. Passou da meia-noite, tô ruim. Melhor contar..."

Ele me olha firme. Não sei se ficou bravo com a brincadeira realmente sem maldade pelo contrário. Finalmente me responde:

"Precisa contar, não. Traga mais, sempre...".

Um turbilhão azul corta a curva da avenida e some no escuro. O bip metálico da campainha se alonga. Nada paira no ar denso da noite do subúrbio, a não ser uma espiral contínua, sem pulso, estirando-se daqui até o Rio Pequeno e logo sumindo nas vielas da São Remo.

terça-feira, 15 de setembro de 2009

Cena de farol

Linha Anhagabaú, Teodoro Sampaio morro acima. Cena de farol, vista através de vidro com fuligem. Tem alguém sentado na calçada, ali fora, entre a manicure e a padaria. Os braços abraçam as pernas, as pernas escondem o tronco, a cabeça se esconde no vão entre ambos.

Será um mendigo?

Os cabelos loiros estão bem lavados, a roupa é decente (blusa de lã trabalhada, calça arrastão, havaianas azuis). De repente, levanta o rosto. Brincos, menina, adolescente, 20 anos no máximo. Tem sardinhas. Aperta os olhos azuis protegendo-os do sol, a boca repuxa. Parece que está acordando.

Motores acelerando, os carros da frente começam a se mover. O farol se abre e o ônibus ainda não saiu do lugar. Ela ainda está ali, encolhida, agora com o queixo enterrado nos antebraços (o sol continua forte e é ruim acordar, assim, com a luz de chapa na cara). O cenho estremece, fica corado. Ela desarma os braços, solta as pernas e abaixa um pouco a cabeça. E então esfrega forte o rosto (agora muito vermelho) com a manga da blusa.

Sinto um repelão que me puxa para frente. A menina começa a deslizar para trás. Duas longas pernas, calça jeans, bloqueiam minha vista.

Manicure, padaria, rara visão da Fradique Coutinho sem trânsito, loja de móveis modernos. Minha cabeça faz giro de 45º.

As pernas sumiram.

A mão se estende no ar em forma de concha.

(e não está chovendo)

terça-feira, 4 de agosto de 2009

Há de chover na Guanabara...

O sol raia alto na Guanabara. Faz um dia azul, aberto, sem sombra de nuvens. E Isabel olha para o mar, de onde aponta, no horizonte, uma barca inglesa. Tem do lado de si um negro, que a protege do sol agreste com um guarda-chuva.

Passados alguns segundos, surge a primeira nuvem. Ao mesmo tempo, a embarcação se assenta à costa e dela sai Erwin Gillian, enviado da coroa. Parece estar cansado da viagem. Mas nem por isso deixa de inspecionar a vista com uma luneta, de pesar a areia com as mãos e, é claro, de respirar fundo a brisa leve que acaricia em silêncio as então numerosas dunas daquela bela franja de mar.

Logo em seguida, termina os cálculos (ou o descanso, não se sabe bem qual), aproxima-se de Isabel e então pergunta:

- Quanto é?

A princesa faz que não ouve. E só quando o estrangeiro está prestes a repetir a pergunta, responde, com ar brejeiro, confiado:

- Meu caro forasteiro... essas coisas não se decidem com valores, assim, em seco, como vós fazeis no velho mundo. Aqui é mister haver maior confiablidade....

Cutuca o negro, que desloca a sombrinha de modo que deixe o sol bater em seu colo generoso.

- Admirastes ainda há pouco estas montanhas às minhas costas. Pois bem. Se quereis saber, já estão loteadas. E onde quer que vossos olhos pousem...

O inglês se constrange. Está cor-de-rosa, afinal, faz 40 graus.

- Escutai-me? Para onde quer que olheis, temos riquezas jorrando à superfície, como se de cântaros transbordassem. Graças mil, que venderemos, é claro, mas não sem sabedoria. Por isso, não nos logreis com transações selvagens, sim?

O inglês se recompõe.

- O que quereis, afinal?

- Já vos disse. Um parceiro... com a ajuda do qual devassar esse véu de mistérios..., diz Isabel, corando um pouco e afinando a voz, como se encerrasse uma pequena frase de maxixe.

O negro, de parte, parece sorrir. Há pouco estava circunspecto, sombrio até. Ninguém ali poderia dizer, mas é a primeira vez que ele vê o mar desde que aportou no Brasil. E o dia não poderia ser mais belo.

- Que sois insensata! E o que nos autoriza a confiarmos nossos recursos a vós, assim, ao vosso alvitre e sem qualquer garantia? Não tendes nada de mais material para afiançar a troca... digo... a colaboração?

O inglês olha para o negro, cioso de que ele tenha compreendido a gafe. Este já não sorri mais. Recobra a fisionomia anterior, mesmo que seu rosto pareça agora um pouco mais anuviado.

- Está bem. Se insistis em nos tratar como a um fazendeiro qualquer, eu vos digo: todas as cabeças que nascerem... deste ano em diante. Sabeis que é isso que vossa raínha quer, não? Está de bom tamanho?

Faz-se um silêncio de vinte segundos, ou mais. Lançam-se olhares desconfiados...

- Tem graça...

- Qual?

- Perdestes o juízo, princesa? Vossos enviados têm se recusado terminantemente a ceder nesse quesito nas mesas de negociação e agora me acenais com disparates? Só podeis estar, como dizeis no rênconcavo a norte... man-jan-do de mim....

A princesa ri do estranja, que fica sem entender nada. Daí a pouco, acena para o negro, que se retira, em direção ao mar. Em seguida, atalha, com voz mansa:

- Viveis no embigo do mundo e, ainda assim, não chegas a divisar nossas razões? Pois então não sabeis que os ares mudam por aqui? E hoje já não temos como nos socorrer adoçando vossos chás da cinco... graças ao vosso maquinário, aliás...

O inglês se enfurece, sente-se injuriado.

Neste momento, começa a boiar, pesado, um cinturão de nuvens negras que ultrapassa devagar a linha do morro. Vem como que do interior do país, de seu ventre.

O inglês retruca, quase perdendo a compostura:

-E com o núbio aos vossos pés, quereis me fazer crer que temeis por tua bela cabeça? Demais, o mundo não gira ao passo de lumbus e convados...

Ela ri de novo. Olha para a mata da Tijuca, depois para o negro, que volta da praia com um fardo nas costas, para o qual o inglês não atenta. Prossegue.

- Esquecei o que acabo de dizer. Tenho uma proposta a oferecer-vos.

- Está certo. Se quereis dizê-la de uma vez...

- Ei-la.

Tira um papel dobrado em quatro do mesmo colo que há pouco constrangia o pequeno homem do norte.

-Se assinardes este documento, eu vos garanto que, em pouco, toda esta terra virgem desmanchará na infusão de vossas cumbucas.

O inglês dá uma risadinha de canto de boca.

- ....e podereis fazer dela o que quiserdes. O único pendor que vos exijo é apenas...

Olha com ar esperto para o negro.

-...o de garantir vossa colaboração com os ventos da liberdade, que começam soprar por aqui...

O azul do céu desaparece e ninguém ali parece lembrar do calor escaldante que fazia há cerca de meia-hora. Já o entendimento do inglês não se fechou com o tempo. E, embora ainda se recomponha da destemperança de há pouco, ele percebe na hora o que a princesa quer dizer. Interessa-se, sem deixar de desconfiar.

Ajeita o paletó e responde.

- Não sei... os temores com que justificastes a transação não se sustentam.

Cede a um olhar indecoroso para as montanhas em volta. E continua...

- Afinal... tendes a temer mais a nós, não é mesmo?

Nesse momento, Isabel vira o corpo de leve, para a esquerda, de maneira que o interlocutor possa ver, num mesmo quadro, seu rosto e o Pão-de-açucar. Abaixo da linha do horizonte, o negro seca a imagem do Cristo que o negro levou para banhar ao mar enquanto a conversa corria solta e só o sol era testemunha.

- Não, não é certo. Ensinaste-nos a lição, Sir - diz Isabel, compungida.

- Não sei se alcanço vosso pensamento...

- Digo, quem no-la ensinou foi Ele -aponta para o cristozinho -, a de viver com o coração leve, sem o pesado fardo da desconfiança. Sem ceder aos impulsos da terra, onde, como bem vês, tilintam os falsos guizos da leviandade.

Diz isso com voz sincera, ainda que o céu escuro imprima a seu rosto um quê de malícia. Prossegue, mais emocionada.

- Sim, caro Erwin. Permite que eu vos chame assim?

O inglês, contrafeito, assente com a cabeça, ainda que não entenda muito bem como diabos a princesa pode ter lhe tratado pelo nome se a conversa começou sem as introduções de praxe.

Nesse momento, para dissipar o mal-estar e dar relevo à proposta de Isabel, o negro, célere, tira não se sabe de onde uma viola. E então, a princesa começa a cantar a famosa ária de Bizet.

Voa, voa, sabiá rebelde
que a brisa do norte
beija e acalanta...

O céu volta a se abrir de novo e da floresta da tijuca ouve-se cantos e ritmos compassados batidos no atabaque. Parecem agitar o semblante do inglês, que ganha uma expressão indefinível. De sua boca sai algo que um brasileiro reconheceria como um soluço. Era um esgar, na verdade, e durou fração de segundo, se tanto. Satisfeito, ele manda chamar o capitão para que testemunhe o acordo. Já Isabel cutuca o negro, que tira da bolsa de juta papel almaço, dois pedaços de crayon, e se posiciona de frente à princesa, para retratá-la. Enquanto isso, ela se posta de frente para o mar, tira do sutiã uma caneta, deixa o vento brincar um pouco com seu vestido e, finalmente, estende a mão para Sir. Gillian.

Quando o inglês vai firmar o negócio, ela retira a mão e o interrompe, dizendo:

_ Veja só... nem bem chegaram, já espantaram o bom tempo... parece que há de chover na Guanabara...

quinta-feira, 21 de maio de 2009

Turismo em Ouro Preto

I

Na entrada da mina do Chico Rei, o garçom reclama do vento que não deixa ele enrolar suas namoradeiras em paz.

Segura com uma mão, pela cabeça, o busto negro e teso; com a outra, agarra e tenta esticar uma folha de jornal.

Da cozinha do restaurante alguém grita “Tropeiro, mesa dez”, enquanto turistas famintos batem a trilha que leva da boca da mina para as mesas do restaurante.

II

Breu na catedral.
Breu nas gentes dentro da catedral. Pilar, pilares.

Tsssssssc...

Santos de resina acendem fósforos na escuridão.

E então, sussurando, o guia nos conta, em meio à apresentação de praxe, a história da segunda porta da igreja.

Chama-se “quebra-vento”, invenção antiga adaptada pelas igrejas de Minas Gerais (particularmente as de Ouro Preto) com o intuito de inibir o intruso, que costuma apagar as velas nos dias de culto.

Foram instaladas depois de 1962.
Depois do roubo de 1962.

III

O colégio do Caraça foi construído em meados do século XVIII, em pleno vigor pombalino, por um misterioso frade lazarista suspeito de ter tido parte no atentado contra o irmão do imperador.

O Caraça não é um distrito de Ouro Preto.

Fica um pouco além de Mariana, depois de Catas Altas, cujo acesso se dá pela Estrada Real, tão esburacada quanto a paisagem carcomida pela Vale do Rio Doce.

Hoje em dia... quer dizer...

... agora que ele não é mais seminário, não abriga os filhos da elite mineira, não fabrica presidentes da República (como Arthur Bernardes e Afonso Pena) e deixou de contratar a preço de varejo formandos da UFOP advindos de outras paragens, como fazia há pouco tempo - conta-nos, segurando na cabeça o chapéu, um ouropretano professor de piano da UFMG, em prosa solta, na soleira da porta da pequena escola de música da cidade - ...

... virou reserva ecológica.

Tem trilhas de quatro horas de duração, hospeda turistas do mundo inteiro e serve uma comida honesta e saudável. Recomendável. Digestiva.

À noite, enquanto os turistas descansam na sala de TV, as estrelas mineiras debruçam das janelas do céu. E, então, da boca do Caraça escapam lobos famintos que devorariam com prazer todo o parque, os turistas, a população local e o colégio.

Mas não o fazem.

Ao invés disso, roem pacientemente os ossos de frango que os padres arrastam com os pés na escadaria da Capela do Colégio, dia após dia.

Foto após foto.

IV


Saía o almoço na República de Ouro Preto. As decanas – mortas – eram azulejos empilhados na parede. Caladas, as princesinhas devoravam sacos e sacos de jujuba.

Findo o prato:

- Dona Dora, senta aqui que eu já acabei. Ponta de sofá é muito ruim.

- Não, filho. Eu fico aqui no meu lugar de sempre.


V

Segunda-feira, subimos o morro do Alto da Cruz para conhecer a Igreja de Sta Ifigênia, construída pela irmandade dos homens pretos.

No último quarteirão, um moleque nos esperava, fitando por debaixo da aba do boné. Tinha os olhos vermelhos, estralados e parecia conversar com alguém que não aparecia além da curva, no topo da ladeira.

Mal recobramos o fôlego, foi logo estendendo a mão veloz e se apresentado como guia turístico.

Falava rápido, com alguma ansiedade, uma fala clara, bem pesada, a custo informativa, muito diferente da dos guias do centro, a não ser pelo fato de trazer em cada silêncio um aleijãozinho de malícia.

No guia do Pilar, o silêncio era uma forma de pressionar para acelerar nossa visita e logo entabular a próxima parte da apresentação. Servia também para medir o êxito das piadas desmistificadoras e averiguar se aceitávamos como fidedignas as informações.

O deste, não. Era diferente.

Quando saímos da igreja, Sta Ifigênia lançou-nos um sorrisinho irônico (oposto, em simpatia, ao do roceiro do mercadinho que nos ensinou o caminho). Parecia com isso nos juntar injustamente às demais irmandades, à horda de turistas atulhados de lembrancinhas, aos estudantes indelicados das repúblicas, aos ricos comerciantes locais, e aos irritantes e cosmopolitas donos de pousadas que, cada um por si, como nos dissera Seu Chico (vigia noturno da pousada São Francisco de Paula), faziam em conjunto a vida na cidade tão difícil, “mesmo fora de temporada”.

Não, Sta Ifigênia.

Deus nos guarde de mostrar a cara de pau turística no teu templo de madeira. Se transpomos teus umbrais é para comungar um pouco com a tua gente que ao invés do dízimo te oferecia as dores da semana.

Trouxemos, aliás, nossos pesares, que deixamos aqui, para ti, em holocausto.

Chegamos à noite, quando o nevoeiro roçava outras torres mais vistosas e envolvia sem carinho teus rosados e humildes espaldares. Mais abaixo é onde nos encontrávamos, Sta. Ifigênia, errando pelos corredores de Vila Rica, enquanto as portas, unânimes, davam-nos as costas.

É verdade que tínhamos em pensamento não a tua imagem e sim abrigo mais profano, onde pudéssemos encostar nossos pertences e, quem sabe?, cear. Mas observe a Sra. que, passados três dias e três noites de nossa chegada, ao invés de nos dirigirmos ao Rosário, fomos atraídos às tuas alturas e subimos calados, como se contássemos as pedras do chão e ouvíssemos, a cada passo, a conversa miúda dos que hoje jazem em teus braços.

No dia anterior, o ouropretano professor de piano em BH fechou a conversa com o ambíguo bordão: “A extração de ouro deixou para Vila Rica as igrejas e os Aleijadinhos; a de ferro e bauxita, deixou para Ouro Preto as favelas e o narcotráfico”.

Salve, Sta. Ifigênia.

Salve.

quarta-feira, 13 de maio de 2009

Algumas manhãs

As manhãs são raras em minha vida. Costumo adiá-las sempre que posso. E me arrisco a dizer que o faço de propósito, mesmo sem perceber.

Não que eu não me prepare para o dia ou não coloque protocolarmente o corpo em posição ereta, gire a testa para o sol e me dispa das roupas pesadas da noite anterior. A dada hora da manhã - tendendo a variar para mais tarde, sempre – executo os mesmos movimentos instintivos que põem em marcha rumo a um novo dia toda a população movida a sonhos, impulsos nervosos, oxigênio e derivados de matéria orgânica na face da Terra.

Algo em mim, no entanto, costuma enguiçar. Minhas pupilas falham em perceber o claro como claro. Meus ouvidos se engolfam na massa indistinta dos motores e os lençóis deixam rastros no meu peito. Afinal é como se todo o meu corpo fosse uma membrana, latejando em vinte direções diferentes, mergulhada sem aviso no rio das horas apressadas em passar.

Quando eu era pequeno, era pior. A ideia do “dia seguinte” doía em mim quase que fisicamente, a ponto de eu ignorá-la. Por isso, fingia que a noite era uma espécie de papel-carbono sobre o qual bastava escrever por cima para que o “dia anterior” nunca acabasse. Na “manhã seguinte”, soletraria o que a mão sonolenta tinha me ditado, guardando comigo o que o “tempo” ameaçava roubar.

Em vão.

Findos os últimos ardis do demônio matinal, o que haveria no papel seria um rabisco miúdo, que logo se estiraria, tomando o espaço de duas, três, quatro linhas, perdendo os contornos, sumindo página acima, para reaparecer à esquerda, à direita. E eu terminaria a “leitura” triste, com a noite reencontrada na forma alheia de um borrão.

Eram poucas e vagarosas as minhas manhãs, minhas verdadeiras manhãs.

Logo cedinho eu acordava, punha um pé no chão e algo já não ia bem; sentia, de pronto, o incômodo da sensação morna, estufada, aderente do carpete. O que eu queria era o chão de verdade, o chão gelado e liso da sacada de nosso pequeno apartamento. Por isso fugia dos cômodos intumescidos, atraído pelos reflexos da luz no corredor. E seguindo-os era como se as próprias paredes girassem sobre si mesmas formando um outro lugar mais amplo e iluminado.

De repente estava às voltas com a sala, aquela cabana de papel borrifada aqui e a ali por clarões de luz. Cruzava-a de uma vez para fazer correr com as mãos pequenas as duas portas da sacada. E ali, no mais-que-aberto-espaço-de-fora, algo além do vidro se abria, permanecendo assim tempo suficiente para que eu despertasse sob o halo do céu azul coalhado de algodão. Sabia que era sábado, não porque faltasse o bip agudo do despertador, mas porque lá embaixo a avenida roncava macio. Apoiava meus pés nas grades brancas meio enferrujadas da sacada e esperava o sol terminar seu trabalho de despertar, mansinho, com os olhos pequenos desabrochando na claridade. Restituído à sua forma de costume, meu corpo se esquentava no calor fresco do dia que, por pouco, não acordara comigo.

Mas também podia acontecer de minha vontade de acordar ficar presa no visco do sono. Isso era ruim, ameaçava as raras manhãs; contra isso, havia, no entanto, um ritual. Nessas ocasiões, mesmo que fosse arriscado ficar parado, eu não corria. Torcia-me todo num passinho de leve até a soleira da porta e, depois, de um estirão, me lançava até a sala, temeroso de que a trama dos fios do carpete envolvesse os meus pés tão miúdos. Minha meta era aquela pequena faixa de pedra-sabão distinguindo a sala da sacada. E quando eu a alcançava, ficava por ali, de pé, até sentir com método o frio subir pelas canelas, depois pelas coxas e enfim pela espinha. E assim permanecia, na mesma e imperturbável posição, imóvel, de olhos fechados, esperando o mundo entrar aos poucos pelas janelas e ir montando devagar sua confusão de barulhos. Um a um os sons do descanso da cidade recompunham em mim o que a noite dissolvia: o sopro ondulado dos carros, a nuvem fuliginosa dos ônibus; a lâmina fria das freadas bruscas; o tclic-tclac do quebra-queixo e a voz forte e grave dos homens do sindicato. E desperto, enfim, tudo agora retomava seu ofício de existir; noite após, em dia novo.

Mas havia também a vezes em que as manhãs me escapavam por completo. Era um mau sinal, a suspeita de que algo em mim não iria despertar. O resto do corpo se despregaria do sono, preguiçoso, sem pulso, contrafeito. Os olhos de repente se abririam, mas o quarto permaneceria escondido na mesma e imperturbável escuridão, as paredes engolfadas em cinza opaco. As pernas se enroscariam sob o peso da coberta e até a cama cresceria, adquirindo durante a noite largura e cumprimento exatos para que a delicada combinação de movimentos de alavanca que faz com que todo homem saia de seu repouso girasse em falso.

Nunca houve reza, verso, frase ou canção que me arrancasse do transe das manhãs dormentes. As janelas não se abriam por si só e todos os sonhos e pensamentos da noite anterior não poderiam me acudir, pois nasceriam, como eu, do que estava para além do torpor. Entregue às manhãs dormentes, eu seria apenas um simples borrão, formando uma concha aqui, um rochedo ali e quatro riscos além uma curva em “s” desmanchada pelo fio de luz escorrendo da janela do quarto.

E viveria em mim apenas o desejo de recuperar, na folha do dia seguinte, a impressão de que algo ali estivesse se movendo, aos poucos, com o vagar miúdo, pequeno e irrequieto de algumas manhãs...